A próxima evolução da alimentação não é apenas nutricional, é comportamental
*Por Soledad Almeida, líder de Biotecnologia da Kerry América Latina.
A história da indústria de alimentos e bebidas sempre foi marcada por ciclos de superação técnica. Nas últimas décadas, aprendemos a produzir em escala, a otimizar processos logísticos e, mais recentemente, a revolucionar formulações com o avanço da biotecnologia, das proteínas alternativas e da saúde digestiva. No entanto, estamos cruzando a fronteira de uma nova era. A próxima grande transformação do setor não será definida apenas por alimentos mais nutritivos ou por cardápios mais funcionais. Ela será, acima de tudo, comportamental.
Mudanças profundas no estilo de vida global, impulsionadas pela busca por longevidade ativa, pelo cuidado com o microbioma intestinal e por novos comportamentos associados à saciedade e ao consumo de proteína, estão redefinindo o conceito de valor. Dados recentes indicam que três em cada cinco consumidores já incluem proteínas ativamente em suas dietas. Entre usuários de terapias GLP-1, sete em cada dez afirmam que a presença de proteína influencia suas decisões de compra. Paralelamente, os lançamentos de bebidas com alegações de proteína cresceram 69% em 2025, consolidando a categoria como uma das plataformas mais relevantes para a inovação nutricional.
O público continua buscando indulgência, conveniência e preços acessíveis, mas passou a exigir um retorno mais claro em termos de vitalidade e bem-estar. Trata-se de uma oportunidade extraordinária e compartilhada, que impacta fabricantes, varejistas e operadores de foodservice, ainda que cada canal enfrente esse desafio de forma diferente.
Durante muito tempo, vigorou no mercado a falsa premissa de que o consumidor precisava escolher: ou um alimento era saudável, ou era saboroso; ou era sustentável, ou era acessível. Hoje, sabemos que a escala e o impacto real do setor dependem de integrar todos esses elementos em uma única experiência cotidiana.
No varejo, o desafio estratégico é aumentar a densidade nutricional dos produtos sem comprometer a experiência sensorial que garante a recompra. No foodservice, o desafio é entregar conveniência e funcionalidade em cada refeição fora de casa, sem perder o apelo do prazer à mesa. Embora operem em canais distintos, ambos os setores enfrentam uma equação cada vez mais parecida, na qual o consumidor espera mais benefícios sem abrir mão de sabor, conveniência e acesso.
É nesse ponto que a nutrição precisa se encontrar com a ciência comportamental. A adição de proteínas, fibras e probióticos, assim como a redução de sódio, açúcar e gorduras, já não responde apenas a uma demanda de saúde e bem-estar. Em muitos mercados, também reflete um ambiente regulatório mais atento à composição nutricional e à transparência para o consumidor. Isso transforma a reformulação em uma agenda estratégica de inovação, na qual o desafio não é apenas cumprir novas regras, mas criar produtos melhores, desejáveis e economicamente viáveis. Ainda assim, produtos e experiências só geram impacto real para a saúde pública e para o balanço financeiro das empresas quando são escolhidos repetidamente. A taxa de adoção e o hábito contínuo são os verdadeiros indicadores de sucesso de qualquer inovação.
Na Kerry, essa transformação é acompanhada a partir da integração entre ciência, conhecimento sensorial, nutrição aplicada e leitura das necessidades do consumidor. É dessa combinação que surgem soluções capazes de ajudar a indústria a tornar escolhas mais equilibradas também mais desejáveis, acessíveis e viáveis em escala.
A resposta para esse novo cenário dependerá da colaboração entre diferentes elos da cadeia. O futuro da alimentação está sendo construído na convergência entre ciência, nutrição, sabor,sustentabilidade e acesso, além de inteligência de dados de consumo e aplicação prática em indústrias, varejo e restaurantes.
Quando a melhor nutrição, a excelência sensorial, a sustentabilidade e a acessibilidade caminham juntas, deixamos de vender apenas produtos para acelerar a adoção em massa de hábitos alimentares mais equilibrados. O futuro da alimentação não é um jogo de soma zero. É uma oportunidade sistêmica de construir um modelo que seja melhor para as pessoas, economicamente mais próspero para os negócios e verdadeiramente sustentável para o planeta.
