Pular para o conteúdo
Exclusivo GiroNews
Imagem destaque: O futuro das certificações no varejo e na indústria
Créditos: Divulgação

O futuro das certificações no varejo e na indústria

*Por Valmir Rodrigues, fundador e CEO da My Trusted Source (MyTS)


 Vi de dentro o sistema de certificações crescer, amadurecer, e agora chegar ao ponto em que precisa ser repensado. O setor global de Testing, Inspection & Certification (TIC) movimenta mais de US$ 6,4 bilhões por ano apenas em alimentos e agricultura, e deve ultrapassar US$ 41 bilhões até 2030. Na Europa, padrões como BRCGS e IFS somam cerca de 40 mil certificações ativas. Nos Estados Unidos, programas como SQF, PrimusGFS e IFS reúnem mais de 20 mil operações certificadas. No Brasil, no entanto, somando BRC, IFS e FSSC 22000, esse número não passa de mil certificações.


 Os dados revelam um abismo entre os mercados: enquanto EUA e Europa contam com milhares de auditores independentes e estruturas consolidadas, o Brasil ainda está em fase de amadurecimento e, justamente por isso, tornou-se o novo alvo de expansão das normas globais. Com a Europa já saturada, o Cone Sul virou o “território de crescimento” do negócio da certificação.


 Mas há um paradoxo evidente: mesmo com a multiplicação de selos e auditorias, a segurança não acompanhou o crescimento. Em 2024, os Estados Unidos registraram 1.392 surtos de origem alimentar, com 487 hospitalizações e 19 mortes, incluindo casos recentes, como o surto de Listeria em frios da Boar’s Head e o de Salmonella em pepinos, ambos em empresas certificadas. Na Europa, fraudes em vinhos e azeites com selos de qualidade continuam recorrentes. No Brasil, investigações revelaram trabalho análogo à escravidão em fazendas de café certificadas e irregularidades em cadeias de moda ostentando selos “verdes”. A realidade é simples: a certificação é uma fotografia do passado, não um espelho do presente.


 A imposição de normas internacionais no mercado brasileiro é, muitas vezes, a expressão da conformidade cega, fazemos porque todo mundo faz. Mas por que exigir padrões europeus ou americanos para atender ao consumidor local? O que o consumidor realmente busca é transparência e confiança. Pesquisas recentes da IFIC e da Deloitte mostram que clareza na rotulagem e comunicação sobre segurança e sustentabilidade pesam mais na decisão de compra do que qualquer selo.


 O problema não está no conceito de certificação, e sim no modelo que se cristalizou. Há um claro conflito de interesse: quem cria as normas também lucra com elas, enquanto produtores e fornecedores têm pouca voz nas decisões. O processo é burocrático e fragmentado, podendo envolver mais de dez etapas e até sete pessoas diferentes. Os custos são altos: uma certificação GlobalG.A.P. pode ultrapassar R$ 10 mil, enquanto BRCGS ou IFS chegam facilmente a R$ 15 mil ou R$ 20 mil por planta, valores inviáveis para pequenos produtores. Além disso, o foco é estreito, a checagem costuma parar no fornecedor de primeiro nível, sem alcançar os elos seguintes da cadeia. E o resultado é a repetição das mesmas não conformidades ano após ano, sem aprendizado real. O que falta não são normas, mas propósito, transparência e comunicação genuína.


 Nesse cenário, o varejo ocupa uma posição central. É ele quem define padrões, influencia fornecedores e responde diretamente ao consumidor. Mas o caminho para o futuro não está em copiar modelos estrangeiros, e sim em aprender com seus erros e construir um sistema mais simples, acessível e alinhado à realidade local. É preciso exigir apenas o essencial, ajustar normas ao contexto brasileiro e valorizar boas práticas reais. Um programa de BPF, HACCP ou auditoria de segunda parte bem aplicada vale mais que um certificado na parede. Dar protagonismo aos auditores, reduzir intermediários e investir no desenvolvimento de fornecedores são passos fundamentais. A tecnologia deve ser usada para simplificar, e não para complicar, transformando o monitoramento em um processo contínuo, transparente e colaborativo.


 O estudo IFIC 2024 reforça essa direção: apenas 21% dos consumidores confiam plenamente em selos, enquanto 65% preferem informações claras e verificáveis. A mensagem é direta: confiança não se certifica, se constrói. O Brasil tem a oportunidade de ser pioneiro nessa virada. Em vez de reproduzir sistemas caros e complexos, pode liderar um modelo mais inteligente, baseado em tecnologia, propósito e diálogo. Um modelo que devolva ao sistema o que ele perdeu: credibilidade. 

29/10/2025

Compartilhar

Notícias em destaque