Medicamentos para perda de peso devem transformar hábitos de consumo no Brasil
O início das vendas de versões brasileiras dos medicamentos para perda de peso à base de semaglutida na última semana promete popularizar o uso e provocar mudanças que vão muito além da saúde. A experiência de mercados mais maduros mostra que a adoção desses tratamentos tem potencial para transformar hábitos de consumo, reduzir gastos com alimentos e bebidas e criar oportunidades para novas categorias de produtos. Dados inéditos da Worldpanel by Numerator, provenientes de uma pesquisa realizada entre março e abril deste ano, revelam que o tema já ocupa espaço relevante na rotina dos consumidores latino-americanos, com 32,5% dos lares da região afirmando conhecer os medicamentos para emagrecimento — ante 26,6% em 2025. No Brasil, o interesse pelo tema é ainda mais expressivo. Com 76% de awareness, o país apresenta o maior nível de conhecimento sobre medicamentos para perda de peso em toda a América Latina — um avanço de 6 p.p. em relação a 2025 (70%), refletindo o forte interesse e a ampla repercussão das canetas emagrecedoras.
Mudança Alimentar
O cenário brasileiro chama ainda mais atenção quando analisado sob a ótica dos hábitos alimentares. Entre os países avaliados pelo estudo na América Latina, o Brasil apresenta o menor índice de consumidores que afirmam seguir uma alimentação equilibrada. Nesse contexto, a crescente popularidade dos medicamentos à base de GLP-1 pode atuar como um catalisador para mudanças no comportamento alimentar, impulsionando escolhas mais saudáveis e transformando categorias inteiras dentro e fora do setor de alimentos. Mais do que uma tendência ligada à saúde, o fenômeno já influencia a forma como os consumidores encaram a alimentação. Na América Latina, por exemplo, dados de 2025 mostram que, entre aqueles que iniciaram ou cogitavam iniciar o uso dos medicamentos, 59% afirmavam reduzir a compra de bebidas açucaradas, 55% diminuíram o consumo de alimentos gordurosos e 51% reduziram a compra de produtos com açúcar.
Reino Unido Antecipa Impactos para o Brasil
No Reino Unido, o estudo mostra que a adoção dos medicamentos altera diretamente a relação dos consumidores com a alimentação. Mais da metade dos usuários (54%) afirma sentir menos desejo por comida e menos “ruído alimentar”, enquanto 75% relatam reduzir o consumo de chocolates e 72% diminuem a ingestão de snacks e salgadinhos. Como consequência, os lares com usuários de GLP-1 gastaram £780 milhões a menos em supermercados durante o período analisado e compraram 299 milhões de unidades a menos do que os demais consumidores. Em média, os gastos anuais dessas famílias foram £418 inferiores aos dos lares sem usuários dos medicamentos.
A transformação também pode impactar o setor de alimentação fora do lar. No Reino Unido, 40% dos usuários afirmam desejar porções menores em restaurantes, enquanto 26% gostariam de encontrar opções específicas para usuários de GLP-1 nos cardápios. Os resultados reforçam uma tendência que pode ganhar escala no Brasil à medida que os tratamentos se tornam mais acessíveis.
Novas Categorias
A redução do apetite e a busca por escolhas alimentares mais equilibradas podem pressionar categorias tradicionalmente associadas à indulgência, como chocolates, snacks, refrigerantes e produtos ricos em açúcar e gordura. Ao mesmo tempo, cresce a oportunidade para categorias alinhadas a bem-estar, saudabilidade e nutrição funcional. Produtos ricos em proteína, alimentos com maior densidade nutricional, porções reduzidas e soluções voltadas à saciedade tendem a ganhar relevância na cesta de compras dos consumidores. O estudo britânico mostra que a popularização dos medicamentos também cria oportunidades para novas categorias.
Entre os usuários de GLP-1, os gastos com enxaguantes bucais cresceram 20 pontos percentuais acima do observado entre não usuários no país, enquanto as compras de gomas de mascar registraram aumento de 24 pontos percentuais. O movimento está associado à chamada “boca de Ozempic”, efeito colateral caracterizado por ressecamento bucal e alterações no hálito. Os dados demonstram que os efeitos da popularização dos medicamentos para emagrecimento vão além da alimentação e podem gerar impactos indiretos em diversos segmentos, incluindo higiene pessoal, saúde, bem-estar e cuidados preventivos.
