Perdas no varejo: R$ 42 bilhões que o Brasil não pode mais ignorar
*Por Rafael Bernardini, CEO da Sekron Digital
O varejo brasileiro cresceu 6,4% em faturamento e movimentou R$ 2,55 trilhões, mas as perdas em 2025 avançaram em um ritmo muito superior: 15,3%. Pasmem, é isso mesmo! Um resultado que merece atenção imediata de empresários, executivos e conselhos de administração das redes varejistas.
O resultado é alarmante. Segundo a 9ª Pesquisa Abrappe de Prevenção de Perdas no Varejo Brasileiro, elaborada pela Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe), as perdas atingiram R$ 42,1 bilhões em 2025. Em outras palavras, a cada R$ 61 vendidos, R$ 1 desapareceu ao longo da operação.
Mas o estudo também traz uma mensagem importante: as perdas não evoluem da mesma forma em todos os segmentos. Enquanto algumas operações ainda enfrentam deterioração dos indicadores, outras demonstram que é possível conter ou até reduzir perdas quando há investimentos consistentes em prevenção, tecnologia e gestão.
O varejo alimentar tem operações mais pulverizadas, elevada movimentação de estoque e produtos perecíveis, fatores que naturalmente ampliam os riscos quando não existem processos maduros de prevenção. Isso explica os motivos das perdas cresceram em quase todos os formatos nas comparações de 2024 e 2025, segundo a Abrappe: mercados de vizinhança passaram de 3,01% para 3,30%; mercados convencionais, de 2,52% para 2,79%; hipermercados, de 2,08% para 2,11%; e atacado/atacarejo, de 1,42% para 1,85%.
Em contrapartida, o segmento farmacêutico praticamente manteve sua estabilidade, passando de 1,25% para 1,24%. Trata-se de um setor que convive com produtos de alto valor agregado, medicamentos termolábeis, e exigências regulatórias que impulsionaram investimentos em prevenção, monitoramento e gestão operacional. Essa maturidade ajuda a explicar a estabilidade do indicador, mesmo diante do aumento dos furtos de medicamentos de maior valor.
Já o varejo de magazines reduziu as perdas de 1,18% para 1,04%, que reflete a evolução das estratégias de prevenção em um segmento altamente exposto a furtos, fraudes e desafios da operação omnichannel. A adoção de tecnologias de segurança eletrônica, inteligência analítica, monitoramento por vídeo e integração entre processos físicos e digitais vem contribuindo para maior controle operacional e redução consistente das perdas.
Esses resultados mostram que, embora o desafio das perdas seja crescente, ele é evitável. Os segmentos que conseguem estabilizar ou reduzi-las normalmente combinam políticas estruturadas de prevenção, monitoramento inteligente, segurança eletrônica, análise de dados, automação de processos e uma gestão integrada de riscos.
O indicador deixa de ser apenas um reflexo da operação para se tornar consequência direta da maturidade da gestão. Esse dado vai muito além de um indicador operacional. Ele representa uma erosão silenciosa da rentabilidade, da competitividade e da capacidade de investimento do varejo.
Durante muitos anos, a prevenção de perdas foi vista como uma área de suporte, concentrada principalmente em furtos, inventários e controles internos. Hoje, essa visão já não corresponde à realidade. O cenário atual mostra que as perdas são consequência de um ambiente cada vez mais complexo, onde questões operacionais, tecnológicas, logísticas e comportamentais se cruzam diariamente.
O varejo brasileiro ainda insiste em tratar perdas como custo operacional quando deveria tratá-las como indicador estratégico de gestão. Os indicadores reforçam exatamente essa tese.
A estabilidade observada nas farmácias e a redução registrada pelos magazines demonstram que investimentos em prevenção de perdas, segurança eletrônica, inteligência analítica, monitoramento por vídeo, automação e gestão de riscos produzem resultados concretos.
Mais do que reduzir furtos, essas iniciativas aumentam a eficiência operacional, melhoram a acuracidade dos estoques, fortalecem os processos e preservam margens. Em um ambiente de crescente pressão sobre custos, prevenir perd
as deixou de ser despesa para se consolidar como investimento com retorno mensurável.
A matemática é simples. Para muitas organizações, recuperar parte dos R$ 42 bilhões perdidos pode gerar mais resultado financeiro do que buscar crescimento adicional de receita. Mas é hora de o varejo acordar. Em um cenário de margens cada vez mais apertadas, o futuro do varejo não dependerá apenas de vender mais, mas da capacidade de perder menos.
