O maior concorrente do supermercado pode ser uma gôndola vazia
*Por João Giaccomassi, diretor de Supermercados da TOTVS
Imagine a seguinte cena: o consumidor entra no supermercado com a lista de compras praticamente definida. Ele percorre os corredores, compara preços, escolhe marcas e chega à gôndola do produto que realmente precisa, mas o item não está lá. Nesse instante, a concorrência muda de endereço. Ela deixa de ser a loja da esquina, a promoção do aplicativo ou a rede vizinha e passa a ser o espaço vazio na própria gôndola.
O consumo dos brasileiros em supermercados cresceu 1,92% no primeiro trimestre de 2026, segundo balanço da Associação Brasileira de Supermercados (Abras). A entidade também projeta alta real de 3% no faturamento do setor em 2026, mesmo em um cenário de juros elevados. Mas crescer exige eficiência: em um ano de eleições, Copa do Mundo e menos dias úteis, o desafio é transformar a demanda em vendas efetivas e isso significa também garantir produtos disponíveis quando o consumidor decide comprar.
Planejamento, controle de estoque e visibilidade da operação passam a ser fatores decisivos para evitar rupturas, reduzir desperdícios e converter oportunidades de consumo em resultados para o negócio.
Um dos maiores desafios da operação supermercadista, muitas vezes, não é atrair clientes para a loja, mas sim garantir que o produto esteja disponível, na quantidade certa e no momento em que a decisão de compra acontece.
Uma ruptura parece um problema operacional simples, mas seus efeitos são profundos. Ela representa uma venda perdida, uma experiência frustrada para o consumidor e uma oportunidade entregue à concorrência. Em um setor de margens apertadas, perder vendas por falhas de execução pode ter um impacto maior do que muitas estratégias comerciais conseguem compensar.
Ao mesmo tempo, o excesso de estoque também pesa no resultado. Produtos parados significam capital imobilizado, aumento de custos e maior risco de perdas, especialmente em categorias perecíveis. Escolher muito ou ter pouco estoque não é a questão. A solução é encontrar o equilíbrio entre disponibilidade e eficiência.
Essa equação ficou complexa demais para depender apenas de controles manuais ou da experiência acumulada das equipes. O ritmo do varejo exige decisões rápidas, baseadas em informações confiáveis e atualizadas.
É por isso que os dados passaram a ocupar um papel tão estratégico. Quando os gestores têm visibilidade em tempo real sobre estoque, validade dos produtos, divergências de inventário e níveis de ruptura, conseguem agir antes que pequenos desvios se transformem em perdas financeiras.
A tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta de controle para se tornar um instrumento de execução. Mais do que automatizar processos, ela aproxima a gestão da realidade das lojas, permitindo priorizar ações, acelerar a reposição e corrigir falhas enquanto ainda há tempo para evitar impactos nas vendas.
Com acesso a informações atualizadas, os gestores conseguem identificar divergências de dados, acompanhar produtos próximos ao vencimento, controlar excessos de estoque e agir rapidamente para evitar rupturas nas gôndolas. Essa inteligência operacional reduz desperdícios, preserva vendas e ajuda a garantir que a disponibilidade dos produtos acompanhe o ritmo da demanda.
E agora falamos de um efeito que vai além do abastecimento. A visibilidade operacional também contribui para padronizar processos entre diferentes unidades, direcionar esforços para os pontos mais críticos da operação e apoiar decisões mais assertivas no dia a dia das lojas.
No varejo alimentar, eficiência operacional deixou de significar apenas redução de custos. Ela passou a representar aumento de vendas, preservação de margens e uma experiência de compra mais consistente. Afinal, uma promoção só gera resultado quando o produto está disponível, assim como uma boa estratégia comercial depende de uma execução eficiente para se concretizar.
O consumidor continuará entrando no supermercado porque precisa abastecer a casa e a diferença estará na capacidade da operação de transformar essa intenção em uma compra realizada, e mais do que isso, estoque equilibrado. No cenário atual do varejo alimentar, a venda não se perde apenas no caixa. Muitas vezes, ela se perde alguns corredores antes, exatamente onde a gôndola deveria estar cheia.
