Gestão de pessoas não é departamento de apoio
*Por Jorge Feliciano, diretor de RH do Grupo Supernosso
Falar em gestão de pessoas costuma levar a conceitos como clima, benefícios, desenvolvimento e retenção. Mas existe uma questão anterior a todas essas discussões: que tipo de experiência profissional estamos construindo e como ela se conecta aos resultados que uma empresa precisa entregar? Afinal, o ambiente altamente complexo e competitivo no mundo dos negócios requer humanização, proximidade com as pessoas, simplificação e foco em resultados como imperativos fundamentais.
No varejo, a diferenciação acontece no piso da loja, na interação direta entre quem atende e quem compra. Não existe canal digital ou campanha de marca que substitua esse momento. Por isso, a condição de trabalho de quem está na ponta deixou de ser tratada como um tema de bem-estar isolado e passou a ser vista como parte da estratégia comercial. A escala 5x2, implantada em todas as lojas do grupo, mantém as 44 horas semanais, mas reorganiza a distribuição em cinco dias de trabalho e dois de descanso, trazendo mais previsibilidade para quem hoje precisa se deslocar seis dias por semana. Essa previsibilidade tem relação direta com a capacidade de reter profissionais num setor em que a rotatividade sempre foi um desafio estrutural.
O raciocínio é simples de enunciar e mais difícil de sustentar na prática: um atendimento humanizado, com cuidado em cada etapa da experiência de compra, do ambiente da loja até a finalização no caixa, depende de equipes que trabalham em condições que permitem esse nível de atenção. Agilidade na solução de problemas do cliente e construção de uma relação de fidelização não nascem de treinamento de atendimento isolado. Nascem também da forma como a empresa organiza o trabalho de quem está na loja todos os dias.
O Programa Jovem Empreendedor de Qualidade parte de outro ponto de partida, mas segue a mesma lógica estratégica. Em vez de tratar o aprendiz como mão de obra de apoio para tarefas administrativas, o programa aproxima o jovem da operação real da loja, com responsabilidades como verificação de produtos, apoio na prevenção de perdas e desperdícios, identificação de riscos e organização das áreas de venda.
Isso muda o que a empresa espera do programa. O objetivo deixa de ser apenas o cumprimento da exigência legal de contratação de aprendizes e passa a ser a formação de talentos alinhados aos valores, à cultura e ao propósito do Supernosso, com desenvolvimento profissional real e possibilidade concreta de crescimento dentro da companhia. É, na prática, um investimento em capital humano com horizonte de longo prazo, não uma obrigação regulatória a ser cumprida com o menor esforço possível. Investir numa geração inquieta e disruptiva como forma de influenciar e moldar os talentos do futuro nos enche de entusiasmo.
As duas iniciativas nascem de pontos diferentes da operação, uma pensada para quem já está no time, outra para formar quem vai entrar, mas convergem para a mesma tese: gestão de pessoas não é um departamento de apoio ao negócio, é parte de como o negócio se sustenta. O desafio, agora que a escala 5x2 está implantada em toda a rede, é manter esse mesmo padrão de atenção conforme a operação continua a crescer.
O cuidado com as pessoas impulsiona a organização para uma cultura cada vez mais sólida.
