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A conta de luz invisível do supermercado

Enquanto a refrigeração for tratada como despesa de manutenção, e não como ativo, o varejo vai continuar comprando barato e pagando caro

*Por Luciano Chaves, Gerente de Vendas da Elgin Refrigeração


  Pergunte a um supermercadista quanto ele paga de aluguel e a resposta vem na hora. Pergunte quanto custa manter uma câmara fria operando dois graus abaixo do que o projeto pede e a resposta demora, quando vem. Essa é a diferença entre um custo que chega em boleto e um custo que se dissolve na conta de luz.


  Os sistemas de refrigeração respondem por cerca de 40% a 50% do consumo de energia elétrica de um estabelecimento comercial, segundo a ABRAVA e o Procel. E a explicação para esse peso está na estrutura de custos do próprio equipamento: segundo a Cartilha de Eficiência Energética em Refrigeração Comercial, elaborada pela ABRAVA, Procel e ABRAS, 75% dos custos de um sistema de refrigeração ao longo de sua vida útil são de eletricidade — contra apenas 15% de custo de aquisição e instalação e 10% de manutenção.


  A decisão de compra, no entanto, quase sempre recai sobre esses 15%. Deveria entrar como ativo, com custo de operação projetado ao longo da vida útil. O equipamento mais barato na hora da compra costuma ser o mais caro no dia a dia. A conta dos outros 75% chega diluída em doze faturas por ano — e por isso ninguém a associa à decisão que a gerou.


Onde o dinheiro escapa

  O desperdício raramente vem de uma falha visível. Vem de rotina. Um condensador sujo faz a troca térmica acontecer em taxa inferior à prevista em projeto, e o sistema compensa consumindo mais. Uma vedação de porta comprometida deixa entrar ar quente — e junto com ele entra umidade.


  A umidade é o começo de uma cadeia cara. Ela vira gelo no evaporador, o gelo exige degelo, e o degelo injeta calor dentro de um espaço que existe justamente para retirar calor. O compressor então trabalha de novo para desfazer o que a resistência acabou de fazer. É um ciclo que o varejista paga duas vezes e enxerga zero.


  O que agrava esse ciclo é a forma como a maior parte dos sistemas ainda decide quando degelar: por relógio. As resistências são acionadas em intervalos fixos, programados na instalação, independentemente de haver gelo acumulado. Num fim de semana em que a câmara sequer foi aberta, o sistema degela do mesmo jeito. Já existe tecnologia que aciona o degelo por demanda real, lendo o acúmulo efetivo de gelo na serpentina em vez de seguir um cronômetro — e a diferença de consumo entre as duas lógicas é grande o bastante para aparecer na fatura.


Custo e emissão são o mesmo problema

  Vale dizer com todas as letras: no caso da refrigeração, eficiência energética e agenda ambiental não são pautas separadas que por acaso convergem. São a mesma pauta. Cada quilowatt-hora economizado é emissão evitada na matriz elétrica, e cada ciclo de degelo desnecessário é energia queimada sem função. Some a isso o fluido refrigerante, cujo vazamento representa perda dupla: compromete o desempenho do sistema e libera na atmosfera um gás com potencial de aquecimento global muito superior ao do dióxido de carbono.


  Um sistema mal dimensionado, portanto, não é apenas um problema de margem. É um passivo ambiental operando 24 horas por dia dentro da loja.


Três decisões concretas

  Tratar refrigeração como ativo muda três decisões concretas. A primeira é contratar projetista qualificado e dimensionar o sistema pelo conjunto, não por equipamento isolado. A segunda é instituir rotina de medição — porque não se gerencia o que não se mede, e a maioria das lojas não sabe qual percentual da própria conta de luz vem do setor de frios. A terceira é decidir a compra por custo total de operação, não por preço de etiqueta.


  Nenhuma dessas medidas exige obra ou parada de operação. Exige apenas parar de olhar para a refrigeração como um gasto inevitável e começar a olhar para ela como aquilo que de fato é: o equipamento que sustenta o produto que o supermercado vende.

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Luciano Chaves, Gerente de Vendas da Elgin Refrigeração - Créditos: Reprodução (Linkedin)
28/10/2026

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