O risco invisível da IA no marketing: a uniformização das marcas
*Por Mariana Tahan Ralisch, Diretora de Marketing da Wake
A inteligência artificial deixou de ser promessa e se tornou rotina no marketing e na produção criativa. Ela acelera processos, reduz custos e permite produzir campanhas, textos e peças visuais em uma velocidade que, há poucos anos, seria impensável. O que exigia horas, às vezes dias, de trabalho agora pode ser resolvido em minutos.
Mas essa eficiência tem um preço que ainda passa despercebido por muitas marcas: o risco de transformar produtividade em padronização. À medida que a IA se incorpora à rotina das empresas, o público também começa a perceber os padrões que se repetem. Textos com cadências semelhantes, imagens com a mesma estética e campanhas que seguem lógicas praticamente idênticas passam a aparecer na comunicação de marcas que, em teoria, deveriam ocupar territórios distintos.
Basta observar o feed de qualquer rede social. Peças com o mesmo tom de urgência, paletas de cores previsíveis, chamadas para ação genéricas e estruturas de texto que prometem soluções rápidas para diferentes problemas. Em muitos casos, não se trata de uma limitação da tecnologia, mas da forma como ela é utilizada: marcas diferentes recorrem às mesmas ferramentas e a comandos semelhantes, sem incorporar repertório, dados, critérios e direcionamentos próprios.
O resultado é uma comunicação que perde identidade. Em vez de fortalecer o reconhecimento da marca, ela reproduz fórmulas que podem ser replicadas por qualquer concorrente com acesso às mesmas soluções. A empresa deixa de construir associações próprias na mente do consumidor e passa a disputar atenção com mensagens cada vez mais parecidas.
Isso muda o centro da discussão. A pergunta não é mais se uma empresa deve adotar inteligência artificial, mas como utilizá-la sem abrir mão daquilo que torna sua marca reconhecível e relevante.
A IA precisa atuar como potencializadora da estratégia, e não como substituta dela. Ela acelera a execução, sugere caminhos, testa possibilidades e amplia a capacidade dos times. Mas não define, sozinha, qual território a marca pretende ocupar, quais compromissos deseja assumir ou quais percepções precisa construir ao longo do tempo.
Essas decisões pertencem à liderança de marketing e às equipes que conhecem a história da empresa, sua cultura, seus públicos, suas tensões e seus objetivos de negócio. Cabe a essas áreas transformar posicionamento em critérios claros para orientar tanto as pessoas quanto as ferramentas utilizadas no processo criativo.
Na prática, isso significa rever a ordem em que muitas empresas adotam a tecnologia. A IA não deveria ser o ponto de partida da criação, mas parte de um processo que começa com uma direção estratégica bem definida. Primeiro vêm o problema de negócio, o público, o posicionamento, a mensagem e o papel daquele conteúdo na jornada do consumidor. Depois, entra a tecnologia, apoiando a execução, a experimentação e a adaptação para diferentes formatos e canais.
Quando essa ordem se inverte, a ferramenta passa a determinar a mensagem. O que deveria ser uma decisão de marca se transforma em uma escolha baseada apenas no resultado mais rápido ou mais conveniente apresentado pelo sistema. Nesse cenário, a tendência é que a comunicação se aproxime da média do mercado.
Evitar esse movimento exige mais do que bons prompts. Exige uma estrutura de governança para o uso da IA no marketing. Isso envolve definir quais tarefas podem ser automatizadas, quais precisam de revisão humana, quais dados podem alimentar as ferramentas e quais elementos da identidade da marca não podem ser flexibilizados.
Também passa pela construção de bases proprietárias. Diretrizes de tom de voz, códigos visuais, estudos de audiência, histórico de campanhas, dados de comportamento e aprendizados acumulados precisam fazer parte do contexto oferecido à tecnologia. Quanto mais genéricas forem as informações utilizadas, mais genérico tende a ser o resultado.
Essa combinação entre tecnologia, repertório e direção estratégica é o que reduz o risco de uniformização. Quando todos têm acesso às mesmas ferramentas, velocidade deixa de ser diferencial. Qualquer empresa pode produzir mais rapidamente. O diferencial passa a estar na qualidade das perguntas, dos dados, das escolhas e da curadoria realizada antes e depois da geração de cada conteúdo.
Essa diferença tem impacto real no negócio. Marcas que abrem mão da identidade em nome da velocidade de produção tendem a competir cada vez mais por atenção e cada vez menos por reconhecimento. Sem uma comunicação distinta, a resposta mais comum é aumentar a frequência das publicações e o investimento em mídia para compensar a ausência de um posicionamento consistente.
O resultado pode ser um ciclo que encarece a operação e fragiliza a marca no médio prazo: quanto mais parecida com o mercado, maior a necessidade de investimento para ser percebida. A eficiência obtida na produção pode, portanto, ser anulada pelo aumento do custo necessário para gerar atenção e preferência.
Por isso, a avaliação do uso da IA no marketing não deveria considerar apenas indicadores de produtividade, como tempo economizado ou volume de peças produzidas. É preciso observar também a consistência da comunicação, a qualidade das interações, a capacidade de gerar reconhecimento e a contribuição de cada iniciativa para a construção da marca.
O diferencial competitivo não está mais apenas em quem produz mais rápido, mas em quem consegue construir uma comunicação autêntica, consistente e reconhecível, mesmo utilizando tecnologias às quais todo o mercado já tem acesso.
