Do El Niño à Black Friday: o fim das certezas no abastecimento
*Por Leandro Murta - Chief Growth Ventures Officer (CGVO) da Neogrid
Prever a demanda por bebidas com meses de antecedência se tornou um desafio maior diante da crescente variabilidade climática. Mudanças bruscas de temperatura alteram o ritmo das vendas e dificultam o planejamento da produção e da distribuição, aumentando o risco de excessos ou falta de produtos nas prateleiras. Além de expor a fragilidade dos modelos tradicionais de gestão, o fenômeno El Niño mostra que não dá mais para contar com o certo garantido.
Esses eventos extremos deixaram de ser exceção e passaram a redefinir a rotina das empresas. Quando o clima oscila bruscamente ou surge uma corrida inesperada de vendas, a capacidade da distribuição é colocada à prova. Em um ambiente de choques frequentes, tentar adivinhar os próximos passos baseando-se em velhas certezas é o caminho mais curto para o desabastecimento.
O grande entrave das organizações reside no hábito de estruturar projeções olhando estritamente para o histórico do ciclo anterior. Esse método trazia alguma segurança em épocas de estabilidade prolongada. Contudo, em um contexto de anomalias constantes, que vão dos impactos ambientais às disputas de preços na Black Friday, utilizar dados antigos como única bússola acaba por cegar a visão estratégica, abrindo espaço para prejuízos elevados.
O reflexo mais doloroso dessa miopia deságua no ponto de venda, atingindo em cheio a Disponibilidade em Prateleira (o conhecido On-Shelf Availability – OSA). Um levantamento da Neogrid, realizado em parceria com o Opinion Box, revela o tamanho do estrago no comportamento do comprador, uma vez que, diante da gôndola vazia, 37% dos clientes optam por adquirir uma marca diferente no próprio local, ao passo que 33% decidem buscar o bem em outro estabelecimento.
Esse número escancara uma realidade amarga para os executivos. A ausência do item na hora exata da decisão de compra cancela o faturamento do dia, invalida investimentos milionários em comunicação e entrega a receita diretamente nas mãos dos rivais. A preferência do cliente, construída ao longo de anos, liquida-se em segundos por falhas de reposição.
Para mudar esse rumo, o mercado já oferece alternativas maduras e acessíveis. A resposta está na implementação do demand sensing, metodologia que escuta os sinais da demanda em tempo real no ecossistema comercial. Em vez de aguardar o fechamento do mês para reajustar ordens de compra, a tecnologia capta o ritmo dos caixas nas lojas, monitora boletins de temperatura e cruza informações dos trajetos de transporte.
Essa transição para uma escuta ativa movimenta aportes expressivos no setor. Dados da consultoria Grand View Research apontam que o mercado global de soluções para resposta rápida deverá alcançar a marca de US$ 5,8 bilhões neste ano. As companhias que adotam esse mecanismo readequam seus depósitos em até 30%, liberando capital de giro sem sacrificar o atendimento final.
Proporcionar que o consumidor encontre o artigo desejado, no local correto e na hora precisa não depende de sorte nem da boa vontade do tempo. Trata-se de construir uma malha responsiva e ajustada à realidade atual. Em um cenário no qual o passado já não assegura os resultados do amanhã, abandonar a rigidez respondendo instantaneamente aos indicadores da ponta é uma escolha que visa preservar a rentabilidade e a reputação das marcas.
