Integração: o grande desafio da indústria de varejo na era das aquisições
*Por Gustavo Pipa,Diretor de Relacionamento para Varejo e Bens de Consumo da Capgemini
Brasil
Estamos passando
pela terceira onda de aquisições no mercado varejista e de bens de consumo no
Brasil - um movimento iniciado antes da pandemia, que perdurou durante o
isolamento e que deve se prolongar ainda por alguns anos. Mas enquanto os
holofotes estão nas operações bilionárias por trás das junções e aquisições da
indústria, há um desafio crucial, e que movimenta o dia a dia e o futuro dessas
companhias: a INTEGRAÇÃO.
Unir equipes,
valores e operações na cadeia de suprimentos e logísticas de duas varejistas é
como traçar a rota de um voo com o avião no ar. Foi assim com as recentes
compras do Grupo Big pelo Carrefour, aquisições de mais de 20 startups (entre
elas Jovem Nerd, Bit55 e Kabum), da gigante Netshoes pela Magazine Luiza e da
Hering pelo grupo SOMA. Uma lista grande e com alto potencial de crescimento. E
em todos os cenários, a meta é realizar a transição da forma mais suave
possível, mas isso não é uma tarefa fácil, traz uma complexidade gigantesca.
O olhar atento à
cultura das empresas, base sobre as quais elas se erguem e se consolidam,
talvez seja o primeiro grande gargalo da integração. Se analisarmos a primeira
onda de aquisições que ocorreu no Brasil (de 1994 até 2002, impulsionada pelo
Plano Real) e a segunda (entre 2003 e 2013, com o fim de um ciclo de boom
econômico global), o desafio da integração de jornadas com a empresa em pleno
funcionamento sempre existiu. Mas o que a onda atual tem como particularidade é
a presença cada vez mais intensa e onipresente da tecnologia -- que de aliada
pode se tornar vilã sem o seu uso inteligente.
Temos mais
ferramentas para gerir nossas performances e otimizá-las, mas também estamos
diante de consumidores exigentes, com olhar e percepções ágeis. Ainda sobre o
aspecto da tecnologia, estamos próximos, mas distantes (remotos), o que aumenta
o desafio de manter times engajados e em sintonia com suas novas estratégias e
funções. Com menos encontros e contato, surge o risco de perda da conexão com a
nova realidade a ser construída dentro da organização.
Vencido esse
grande passo (ou enquanto passamos por ele), esbarramos no processo de
integração de sistemas, que por si só pode representar uma barreira em alguns
processos. Primeiro, é preciso entender quais e quantos sistemas continuarão
operando, destacar os mais críticos para o dia a dia e os sistemas considerados
satélites, além de garantir toda a segurança dos dados. É preciso olhar para a
tecnologia com uma ferramenta-chave no processo de facilitação dos fluxos de
trabalho.
Para a roda
seguir girando, é necessária uma boa governança. É essa a instância que irá
gerenciar e liderar a rotina da empresa e orquestrar todas as demandas da
junção. Para isso, um planejamento eficaz e uma equipe experiente de PMO, que
conheça os processos e a indústria, são primordiais. Escolher e ajustar a
melhor metodologia para cada caso, a partir das lições aprendidas com práticas
do mercado, também faz muita diferença. E daí em diante é definir o plano de
mudanças, os indicadores de desempenho a serem avaliados e todas as
intercorrências que poderão impactar desfechos e o cronograma.
Em todo o negócio, um dos pontos mais críticos é
enxergar quais processos precisam ser transformados para gerar valor para a
companhia. E neste sentido, um olhar menos cuidadoso pode desestruturar toda a
operação de integração, por isso é tão importante que o time de negócios esteja
alinhado com as lideranças do processo. No varejo isso significa estar atento
às constantes mudanças no perfil do consumidor, à urgência de experiências cada
vez mais personalizadas e o surgimento constante de plataformas e ecossistemas.
Quaisquer que
sejam as ferramentas das quais vamos lançar mão durante o suporte a uma integração,
é fundamental ter no radar a premissa de extrair o melhor de cada companhia,
com lideranças ativas e atentas ao ganho de sinergia, à fluidez e -- para tanto
-- às pessoas, que são os grandes ativos e propulsores de qualquer companhia.
Não haverá processos de integração iguais e que funcionem da mesma forma para
todas as empresas ou segmentos, por isso quanto mais customizadas forem as
ações, mais fluida será a transição.
