Era da IA: o prejuízo do supermercado não está no estoque, mas na demora para decidir
*Por João Giacomassi, diretor de produtos para supermercados da TOTVS
Durante décadas, a eficiência na gestão de compras foi medida pela capacidade de encontrar o equilíbrio entre dois extremos: evitar rupturas sem transformar o estoque em capital parado. O desafio continua o mesmo, mas a velocidade com que o varejo mudou tornou essa equação muito mais complexa.
Hoje, o supermercado já não administra apenas alimentos. Ele reúne, sob o mesmo teto, categorias com dinâmicas completamente diferentes, como produtos de higiene, beleza, conveniência e, cada vez mais, farmácias. Ao mesmo tempo, o consumidor se tornou menos previsível, a concorrência mais intensa e as cadeias de abastecimento mais sensíveis a fatores externos. Nesse cenário, o problema deixou de ser a falta de informação. O verdadeiro desafio é transformar informação em decisão antes que ela perca valor.
Essa talvez seja a maior mudança promovida pela inteligência artificial no varejo. Costuma-se dizer que ela melhora previsões de demanda, automatiza processos e reduz rupturas. Tudo isso é verdade, mas seu impacto mais relevante está em outro lugar: na velocidade da decisão.
Uma alteração na previsão do tempo, uma promoção agressiva do concorrente, um evento local ou uma tendência impulsionada pelas redes sociais podem mudar o comportamento de compra em questão de horas. Quando a análise depende exclusivamente de relatórios consolidados ou da interpretação manual de dezenas de indicadores, muitas decisões já nascem atrasadas. E, no varejo, decisões tardias custam caro.
É justamente nesse intervalo que a inteligência artificial faz a diferença. Em vez de apenas organizar dados, ela identifica padrões, cruza milhares de informações simultaneamente e aponta mudanças que dificilmente seriam percebidas no ritmo da operação. O objetivo não é substituir o comprador, mas permitir que ele dedique menos tempo procurando respostas e mais tempo tomando decisões estratégicas.
Essa lógica ganha ainda mais importância com a transformação do próprio supermercado. A expansão das farmácias dentro das lojas é um bom exemplo. Para o consumidor, trata-se de mais conveniência: fazer as compras do mês e adquirir medicamentos em uma única visita. Para a operação, porém, representa um novo nível de complexidade.
Medicamentos seguem regras específicas de armazenagem, rastreabilidade e controle de validade. Sua demanda responde a fatores diferentes dos alimentos, assim como a relação com fornecedores, o giro dos produtos e os riscos de perdas. Administrar essas categorias utilizando os mesmos critérios de compra aplicados à mercearia tradicional significa abrir espaço para desperdícios, rupturas e estoques desbalanceados.
A inteligência artificial ajuda justamente a lidar com essa complexidade crescente. Em vez de analisar categorias de forma isolada, ela conecta dados de diferentes áreas da operação, identifica comportamentos distintos entre os produtos e recomenda ações considerando o impacto sobre o negócio como um todo. Isso permite decisões mais precisas, seja para ajustar volumes de compra, redistribuir estoques entre lojas ou antecipar riscos antes que eles cheguem às gôndolas.
Esse movimento também muda o papel do estoque dentro da estratégia do varejo. Durante muito tempo, ele foi visto apenas como consequência das compras. Hoje, ele revela a qualidade das decisões tomadas pela empresa. Um estoque elevado nem sempre indica uma boa negociação. Muitas vezes, é o reflexo de uma decisão baseada em um cenário que já mudou e, da mesma forma, uma ruptura raramente acontece de forma repentina; ela costuma ser o resultado de sinais ignorados ao longo do processo.
No futuro próximo, a vantagem competitiva não estará em quem possui mais dados, afinal, eles estão disponíveis para praticamente todos. Também não estará apenas em negociar melhor com fornecedores ou ampliar o sortimento. O diferencial será a capacidade de interpretar mudanças enquanto elas acontecem e agir antes da concorrência.
Em um setor de margens apertadas, cada decisão tomada no momento certo representa vendas preservadas, desperdícios evitados e capital mais bem alocado. É por isso que o supermercado não perde dinheiro porque erra o estoque, mas sim porque decide tarde. E, na era da inteligência artificial, reduzir esse tempo entre entender e agir pode ser a diferença entre acompanhar o mercado ou liderá-lo.
