Cibersegurança no E-commerce Não se Conquista com Promoções e Poucos Cliques
*Por Gustavo de Camargo
A alta da inflação não reduziu o gosto do brasileiro pelas compras
on-line, que no primeiro trimestre deste ano registraram aumento de 12,59%. Com
este hábito mais incorporado, o lojista se mobiliza para crescer
tecnologicamente com a adoção de novas estratégias como o omnichannel --
quando, por exemplo, o consumidor compra on-line e pega o produto na loja -- e
em serviços financeiros, oferecendo todas as operações na mesma plataforma, sem
que o consumidor precise sair de seu ecossistema para realizar o pagamento.
Enquanto os serviços do varejo se aproximam cada vez mais do financeiro, sua
maturidade em cibersegurança está longe de chegar lá. Muitos varejistas não
possuem sequer duplo fator de autenticação via token, o que hoje é considerado
recurso básico de segurança.
Mas crescer digitalmente também traz desafios. Enquanto as
empresas expandem seu universo on-line, criminosos também aumentam suas
operações. É cada vez mais recorrente a invasão aos sistemas de sites de
e-commerce com ataques cibernéticos, fazendo com que o lojista virtual "feche
suas portas", ao menos temporariamente, e deixe de completar a sua missão maior
e interrompendo seu maior objetivo:
vender. Um exemplo recente é o das Lojas Americanas e o do site Submarino que
tiveram suas operações paralisadas por quatro dias após um ataque em sua
plataforma de e-commerce.
Quais as mais comuns? A pesquisa inédita Perfil do Fraudador no Brasil, realizada pela KPMG no
Brasil, revelou que as fraudes mais comuns por aqui são relativas a conflitos
de interesses (68%); furto ou roubo de ativos (52%); adulteração de documentos
(49%); vazamento/ violação de dados ou informações (24%). Segundo outra
consultoria, a alemã Roland Berger, a cada segundo uma empresa no Brasil recebe
uma tentativa de ataque hacker, fazendo o país ocupar mundialmente o 4º lugar
em volume de tentativas de ataques ransomwares, quando é bloqueado o acesso ao sistema ou os dados são criptografados e
exige-se dinheiro de resgate em troca da liberação.
Estima-se que os varejistas de comércio eletrônico perderam mais
de US$
20 bilhões em 2021 devido a atividades fraudulentas online, segundo um balanço
de pesquisa global da Juniper. Essa perda representaria um aumento de 18%, em
comparação aos US$ 17,5 bilhões registrados no ano passado.
Entre os crimes mais comuns, temos o Roubo de Identidade, golpe
onde o fraudador se apodera de informações pessoais como nome de usuário,
número de cartão de crédito e dados bancários. Não se trata apenas do custo
financeiro - a fraude também afeta a fidelidade da marca e do cliente. Como os
consumidores não estão cientes de como a fraude funciona, eles geralmente
culpam o vendedor on-line e são menos propensos a comprar em seu site
novamente. Uma vez que o cliente perde a confiança, deixa de comprar ou usar os
serviços oferecidos, trazendo perdas financeiras significativas à empresa e até
mesmo colocando-a em risco legal.
Ficar atento às principais recomendações de mitigação é
fundamental para manter um ambiente virtual seguro e a experiência do seu
cliente satisfatória. A implementação de autenticação robusta com base em risco
melhora a usabilidade do usuário dentro da loja online, uma vez que esse pode
realizar compras de uma maneira mais segura sem essencialmente ter que inserir
dados como login e senha todas as vezes em que realizar uma transação.
Mas como empresas do porte das lojas Americanas, do Submarino, da
Renner, entre outros casos recentes sofrem esses ataques? Por meio de brechas.
E elas são ainda muito mais frequentes quando o varejista está em um processo de digitalização forçada - muito acelerado pela
pandemia - e precisa adequar seu modelo de negócios rapidamente, sacrificando a
devida atenção à cibersegurança como prioridade estratégica.
Durante os ataques não são só as vendas que podem parar
temporariamente. Há outros prejuízos, considerados ainda maiores por muitos
especialistas que ferem a imagem das empresas: o vazamento de dados dos
consumidores, de parceiros, de terceiros etc. Uma das graves consequências são
possíveis sanções de órgãos reguladores que podem aplicar multas como o Procon,
o Ministério Público, a Secretaria Nacional do Consumidor, além da Autoridade
Nacional de Proteção de Dados que fiscaliza a Lei Geral de Proteção de Dados.
Como resolver essas brechas virtuais? A situação é complexa e
exige alguns passos. O primeiro deles é olhar para a governança da empresa, o
que envolve não apenas a tecnologia em si, como também os processos e, claro,
as pessoas. A partir desta visão é possível analisar os riscos de fraude,
implantando indicadores de monitoramento que apresentem as ameaças presentes como também às futuras, se antecipando a eventuais perdas.
Uma atenção especial deve ser dada às ameaças internas, ou seja,
os usuários do sistema, incluindo em primeiro lugar os funcionários. Isso pode
ser feito a partir do desenvolvimento de uma cultura forte, em que eles estejam
cientes dos riscos da fraude e entendam como reagir a elas. Deve-se incluir
nesta lista interna também parceiros e fornecedores que podem criar ou serem
vítimas das brechas existentes por pura falta de informação.
Para isso é importante pensar na criação de uma política de
classificação de informação, que se materializa com o mapeamento de dados que
precisam ser protegidos, com a implantação de uma estrutura de cibersegurança e
com o treinamento de todos os usuários. Além disso, as empresas precisam contar
com soluções de autenticação de acessos, já que muitos usuários, internos ou
externos, são vítimas de phishing, que ocorre quando o usuário clica em um link
acreditando se tratar de algo legítimo e, assim, abrem as portas do sistema. Já
outros estão envolvidos no crime. A mesma pesquisa da KPMG citada anteriormente
revela que o fraudador trabalha na empresa por um período de um a quatro anos
(45%) e 34% estava na organização há mais de seis.
Outra iniciativa importante é a adoção de diferentes formas de
proteção ao invés de uma só. A combinação de diversos mecanismos de defesa
potencializa os efeitos e reduz as chances de o fraudador conseguir burlar o
sistema. Investimentos são necessários em infraestrutura de redes e backup como também a atenção redobrada à gestão de
senhas das organizações. Por fim, é imprescindível que os varejistas conheçam
seu consumidor e contem com ferramentas que lhes permitam identificar
comportamentos anômalos para prevenir fraudes.
Mas nada disso dará certo sem que as lideranças da empresa vistam
a camisa da cibersegurança e coloquem o tema como prioridade estratégica do seu
e-commerce. É isso que fará com que sua "loja virtual" tenha vantagem
competitiva, boa reputação, e garanta a satisfação de quem mais importa: seus
consumidores.
*Gustavo de Camargo é VP
de Venda da VU.
