Os desafios do setor supermercadista com o fim da escala 6x1
Na sexta-feira (16), o Congresso Nacional promulgou a emenda à Constituição que acaba com a escala de trabalho 6x1 e garante aos trabalhadores dois dias de repouso remunerado por semana, sem redução salarial. É a primeira mudança na jornada de trabalho em 38 anos, desde a Constituição de 1988. Em entrevista exclusiva ao Jornal Giro News, Michel Jasper, CEO da Web Jasper, especializada em sistemas de tecnologia para o varejo, analisou os principais desafios dos supermercados diante da mudança. “Para manter as mesmas horas trabalhadas, a loja precisa contratar cerca de 10% a mais de horas, sem redução de salário. A folha é uma das maiores linhas de despesa da operação. Num negócio com margem líquida que historicamente gira entre 2% e 3%, não existe gordura para absorver isso calado”, afirma. O domingo também se torna um desafio para o setor, já que o texto aprovado no Senado determina que uma das folgas seja preferencialmente no domingo - dia que gera um dos maiores faturamentos da semana para o setor.
Mudanças operacionais
A nova regra também esbarra na dificuldade de contratação nos supermercados. “Precisar de 10% mais horas num mercado que hoje não encontra nem repositor para a vaga aberta não é uma decisão de planilha. Por isso, as redes pequenas e médias, que trabalham com equipe enxuta e pouca folga para remanejar, são as que precisam começar a se preparar agora”, avalia. Para manter o atendimento nos horários de maior movimento, finais de semana e feriados, os supermercados precisarão reorganizar as escalas, considerando o fluxo de clientes por horário e setor. “Supermercado não tem demanda média. Tem pico de sexta à tarde, sábado de manhã, véspera de feriado e semana de pagamento. A escala precisa nascer do fluxo de cupons por hora, setor por setor, e não do quadro de funcionários dividido pelos dias da semana”, explica o empresário.
Tecnologia ajuda a conter custos
Outra possibilidade é transferir atividades operacionais para períodos de menor movimento, como início da manhã ou fim da noite, incluindo tarefas como reposição, recebimento, conferência de validade e montagem de ponta de gôndola. “Isso libera gente para caixa, açougue, padaria e hortifrúti quando o cliente está lá”, afirma. O CEO também destaca, como parte da reorganização das escalas, o planejamento das folgas e o uso de jornadas diferenciadas, banco de horas e acordos coletivos, conforme as regras aplicáveis. Nesse cenário, a tecnologia e a análise de dados podem ajudar a dimensionar equipes e reduzir custos operacionais. “Boa parte das redes ainda monta escala com base na experiência do gerente e numa planilha. Funcionou enquanto sobrava hora. Com 40 horas semanais, cada erro de dimensionamento fica caro”, afirma. Informações do sistema de gestão (ERP), como fluxo de cupons por hora, vendas por seção e giro por categoria, podem ajudar a identificar onde há falta ou excesso de funcionários. Entre as soluções que podem ganhar espaço estão caixas de autoatendimento, etiquetas eletrônicas, pedidos automatizados e controle digital de validade. “Antes do totem e da etiqueta eletrônica, a loja precisa ter estrutura mercadológica organizada, cadastro limpo e planograma. Sem isso, a tecnologia vira mais uma linha de custo, quando deveria ser economia”, conclui Michel Jasper.
