Repensar o Atendimento é Questão de Sobrevivência para o Varejo
*Por Leo Frade
Antes
de expor qualquer opinião sobre a importância de se automatizar o
Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC), proponho uma reflexão: você
sabe dizer o motivo dele ser feito da mesma forma manual que anos atrás?
Na minha visão, isso acontece por três motivos. Primeiro, pela ideia de que "em time que está ganhando não se mexe".
Segundo, pelo foco dos lojistas estar, majoritariamente, em gerar
receita, e não em garantir uma operação de qualidade. E, terceiro, é o
fato do teleatendimento hoje ser ainda uma herança da venda por
catálogos.
Durante
muitos anos, as pessoas pegavam o catálogo e ligavam para a loja
solicitando os itens escolhidos. Esse era o único canal para falar com a
marca em situações não presenciais. Com a chegada do e-commerce, as
vendas ganharam velocidade e escala, e tudo o que tange às vendas mudou.
Mas, o restante da operação - que engloba o pós-vendas - não acompanhou
essa evolução e ficou parado no tempo, por isso o SAC ainda é visto
como um mal necessário.
No
contexto atual, sabemos que a pandemia acelerou a curva de adesão às
compras digitais e fez com que várias marcas fizessem definitivamente
sua migração para o online. De acordo com a edição mais recente do
relatório da Neotrust, principal fonte sobre o e-commerce brasileiro,
nos três primeiros meses de 2021 o e-commerce teve um crescimento de
57,4% no comparativo com o mesmo período do ano anterior. Temos,
portanto, mais pessoas comprando via internet e mais lojas presentes no
mundo virtual, o que aumentou a concorrência e também o custo de
aquisição de novos clientes, chamado de CAC (Custo de Aquisição do
Cliente). Somente em 2020, aproximadamente 13 milhões de brasileiros
fizeram compras pela internet pela primeira vez. Este número é 29% maior
se comparado a 2019.
No
entanto, pouca coisa mudou no pós-vendas nos últimos 50 anos. Os
lojistas estão preparados para vender em grande escala, mas não para
atender chamados nesta mesma proporção. Eles podem ter toda a estrutura
de captação e conversão bem feita, mas, se o cliente não se sentir 100%
atendido, ele provavelmente não voltará e essa perda tende a ser
irreversível.
É
neste cenário que revisitar a forma de atender vem como solução
fundamental para que as lojas online sigam ativas e em constante
crescimento. Automatizar não significa reduzir os custos do atendimento e
sim transformá-lo em um gerador de confiança. A automação do SAC
permite elevar o nível de escala da operação de forma saudável e
aumentar as oportunidades de novas compras, ampliando o lifetime value (LTV), o valor que o cliente gasta durante o tempo de relacionamento com a loja.
Em
um SAC inteligente, a antecipação de possíveis problemas com processos
de trocas, devoluções, monitoramento de ocorrências e rastreio de
pedidos pode ficar a cargo de uma solução digital que faça tudo isso em
escala de tempo real, sem intervenção humana, mas mantendo a essência
que interessa ao consumidor, a confiança de eventuais problemas serão
resolvidos da melhor forma possível. Assim, o comprador retorna.
Conforme
citei antes, o desafio atual é gerar valor em um cenário com cada vez
mais concorrência. O diferencial competitivo contra o concorrente está
numa experiência pós-vendas inteligente, que supera as expectativas num
contexto, normalmente negativo, e faz com que o cliente retorne, sem a
necessidade de investir novamente em sua aquisição.
E como começar a construir este novo SAC?
Construir uma relação de confiança com quem compra, baseada em transparência e empoderamento, é imbatível para gerar mais vendas. Traduzindo isso em números, sabemos que conquistar um novo cliente custa 7 vezes mais do que aquele já fidelizado. E, quando uma loja aumenta 5% a retenção de sua base de compradores, ela consegue crescer em 25% sua margem de lucro.
Para iniciar esta transformação, acredito que o primeiro
passo é entender previamente quais caminhos o consumidor passa e
viabilizar uma jornada com ferramentas de auto-resolução de problemas.
Assim, ao invés de informar ao cliente o que ele deve fazer, ele já tem
um caminho de autoatendimento pronto e o poder de tomar as decisões que
precisa. Afinal de contas, se ele pesquisou, decidiu comprar e comprou
sozinho, precisa ter os meios para decidir como se auto-atender sem
depender de ligar no SAC em horário comercial, das 8 às 18hs, e esperar o
backoffice retornar depois de alguns dias. Vivemos em um mundo
onde esperar mais que 10 minutos por uma corrida via aplicativo é
inaceitável, imagine esperar 36 horas pelo retorno do código de postagem
de uma devolução?
Esse
é o diferencial competitivo usado pela Amazon, Alibaba e por outros
players gigantes do varejo online. Todos eles criaram um círculo
virtuoso pautado em experiências de atendimento amigáveis e confiáveis, o
que auxilia na criação de uma base engajada a comprar com mais
recorrência e por muito mais tempo.
Finalizo, portanto, com uma última pergunta: ficou alguma saudade dos "velhos tempos" de SAC pelo telefone?
*Leo
Frade é cofundador e CEO da aftersale.
26/07/2021
