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Imagem destaque: O Brasil é feito por particularidade de alguns CEPs
Alessandro Gil é VP da Wake. Créditos: Divulgação

O Brasil é feito por particularidade de alguns CEPs

*Por Alessandro Gil, VP da Wake


Poucos temas entraram tão rápido na pauta do varejo de moda quanto o efeito das medicações análogas de GLP-1 (popularmente conhecidas como canetas emagrecedoras) sobre os hábitos de consumo e, mais recentemente, sobre a demanda de tamanhos de roupas. A conversa costuma começar pelo fenômeno e terminar numa conclusão apressada: a grade mudou, é preciso comprar mais PP e P.


Até mudou, mas não em todo lugar, e é justamente aí que a decisão se torna interessante.


A escala é real. Pesquisa do Instituto Locomotiva, divulgada em abril de 2026, aponta que 33% dos domicílios brasileiros já têm algum morador que usa ou usou os medicamentos, contra 26% no fim de 2025. O mercado deve saltar de cerca de R$ 11 bilhões em 2025 para algo próximo de R$ 20 bilhões em 2026.


O reflexo na moda é mensurável. O IEMI projeta que a participação do plus size no varejo de moda recue para 6% em 2026, e lojistas relatam quedas expressivas na procura por tamanhos maiores. Há ainda um efeito de segunda ordem pouco explorado: os gastos com vestuário crescem de 4% a 5% cerca de seis meses após o início do tratamento. Quem emagrece refaz o guarda-roupa e compra as peças que antes não vestiam.


Ou seja: a discussão não deveria se limitar à queda de demanda por tamanhos maiores. Há potencialmente um novo ciclo de consumo, com mudança de grade, reposição de peças e renovação de guarda-roupa. É um deslocamento de demanda com janela de tempo previsível. O ponto mais relevante para o varejista, porém, é entender onde e com qual intensidade esse movimento realmente aparece.


Agora o recorte que raramente entra na conversa. O uso está concentrado em 39% dos domicílios das classes A e B. Redes de farmácia voltadas a esse público respondem por cerca de 35% das vendas do país.


Traduzido para operação de moda: o fenômeno é intenso em algumas praças e praticamente inexistente em outras. Uma loja num shopping de alto padrão em São Paulo pode estar vendo a grade se deslocar de forma clara, enquanto uma unidade no Rio, ou numa capital do Nordeste, ou numa cidade média do interior, não registra nada parecido. O comportamento é de CEP.


Quem aplica uma leitura de tendência ao país inteiro comete o erro mais caro do planejamento de compra, ele acerta a direção e erra a distribuição. Comprar mais PP e P para toda a rede sem verificar onde essa mudança efetivamente acontece, pode gerar ruptura onde a demanda real continua no meio da curva e excesso de estoque onde ela nunca se moveu. E sobra de tamanho é remarcação garantida, porque a moda é produto perecível, com ciclo comercial: não tem data de validade no rótulo, mas perde valor à medida que a coleção avança


E há um sinal de virada. A patente da semaglutida expirou no Brasil em março de 2026, abrindo caminho para genéricos de 30% a 50% mais baratos. A concentração de renda que hoje define o mapa do fenômeno deve se diluir, só que gradualmente, e em ritmo diferente por região. Mais uma razão para tratar isso como análise contínua por praça, não como ajuste único de grade.


O caso das canetas é útil porque expõe algo estrutural: o varejo brasileiro é regional, e a tendência agregada é a pior base para decisão de compra.


Isso vale além dos tamanhos. Sazonalidade, mix, resposta a promoção, ticket, tudo isso varia por praça. A diferença é que ninguém questiona a regionalidade do clima, e muita gente ainda trata comportamento de consumo como fenômeno nacional.


Duas condições práticas para operar isso.


A primeira é dado granular por unidade. Pedido, ruptura por tamanho, taxa de conversão da grade e giro por SKU precisam ser lidos loja a loja. É essa granularidade que permite separar uma tendência real de uma percepção pontual e sustentar decisões de compra, reposição e distribuição.


A segunda é capacidade de agir de forma diferenciada. Ler que a curva mudou no JK e não no Rio só tem valor se a operação puder comprar, distribuir e repor de maneira distinta. Isso passa por regras de negócio configuráveis por cluster de loja e controle de origem do pedido.


E vale registrar quem enxerga primeiro: o franqueado. Ele percebe a mudança na grade semanas antes de qualquer relatório central, porque atende o cliente. Ignorar essa leitura é desperdiçar a fonte mais rápida de informação da rede.


Não é "o efeito das canetas mudou a curva de tamanhos?". É "mudou onde, em que velocidade e por quanto tempo?". A primeira pergunta rende manchete. A segunda orienta estoque, distribuição e margem.

02/09/2026

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