Construção Civil Fecha 2020 com Crescimento de Mais de 20% - o que Esperar de 2021?
*Por
Antonio Serrano
O ano de 2020 começou com grandes expectativas
para a Construção Civil, é verdade. Não por menos: o setor vinha de um contexto
de cinco anos de retração, entre 2014 e 2018, passando por um ano de 2019 com
baixo crescimento. Em poucos meses, no entanto, veio a pandemia e, como muitos
setores, a Construção Civil sofreu forte impacto no volume de vendas.
Em abril, a Juntos Somos Mais , uma joint venture entre Votorantim Cimentos, Tigre e
Gerdau e atuação no varejo de material de construção, identificou uma queda de
atividade de cerca de 15% quando comparado ao período pré-COVID. As boas
expectativas para o ano foram completamente desfeitas quando uma pesquisa com
indústrias do setor apontou que apenas 11% acreditavam em um faturamento em
2020 superior a 2019. A grande maioria (56%) entendeu que haveria queda entre
10% e 30%.
Apesar do pessimismo, aprender a superar crises
está no DNA do setor que é muito resiliente e encara os desafios de forma criativa.
Essa postura, frente às duras demandas advindas da pandemia, fez com que o
varejo de material de construção se reinventasse rapidamente, já mostrando em
maio um desempenho 8% superior ao período pré-COVID segundo a Juntos Somos
Mais. Em junho, o Índice Cielo do Varejo Ampliado apontava o varejo de
materiais de construção como o setor com o maior crescimento versus o período
pré-COVID. O setor seguiu acelerando e o indicador de atividade da Juntos Somos
Mais registrou desempenho quase 30% superior ao período pré-COVID no terceiro
trimestre de 2020, acima de 40% nos meses de outubro e novembro, fechando o ano
com mais de 20% de crescimento.
Mas afinal, o que levou o setor a atingir esse
patamar de destaque em um ano em que o PIB do Brasil deve cair cerca de 4,5%?
Podemos resumir os principais fatores em 3: (i) lojas de material de construção
foram consideradas essenciais e ficaram abertas durante a maior parte da
pandemia, (ii) demanda reprimida e mudança de preferência em relação à casa e
(iii) reação da política econômica com auxílio emergencial e redução taxa de
juros.
O varejo de material de construção foi amplamente
reconhecido pelas autoridades como fundamental e garantiu acesso a itens para
reparos e construções emergenciais tanto para instituições de saúde como
hospitais, clínicas, bancos de sangue, indústrias alimentícias, supermercados e
farmácias quanto para a população como um todo.
No entanto, ficar aberto não seria motivo
suficiente para o crescimento se não tivesse havido também uma mudança no
comportamento do consumidor que, com o isolamento social, passou a ficar mais
tempo em casa e ressignificou sua relação com seu próprio lar. Pesquisa da LEK
mostrou consumidores classificando "pequenas reformas" como
importantes (não supérfluo). Varanda, vista livre e ambientes mais bem
divididos passaram a ser fatores importantes ou muito importantes para esse
consumidor pós-pandêmico, segundo o Grupo Zap. O número de pessoas dispostas a
mudar de casa para usufruir dessas características é 4 vezes maior do que no
período pré-pandemia, como mostra a pesquisa do Upwork com 20 mil pessoas nos
EUA.
A redução da taxa de juros básica para o menor patamar
histórico de 2% ao ano resultou em uma redução da taxa média de financiamento
imobiliário de 15,6% em 2016 para 7,6% em 2020, com impactos no valor do
parcelamento de imóveis que pode superar 30%. Dados de vendas de imóveis da
ABRAINC de setembro apontam crescimento de 20% no acumulado de 2020.
Financiamento de imóveis a 52% de crescimento no acumulado até novembro segundo
a ABECIP. O índice de confiança da construção atingiu níveis que não se via
desde 2014 e houve 7 lançamentos iniciais de ações (IPOs) de construtoras em
2020, algo que não ocorria desde 2009.
O auxílio emergencial também teve um papel
importante no setor. A Juntos Somos Mais concluiu em um estudo de correlações
entre dados internos e externos, e mostrou que o auxílio emergencial foi
responsável por 75% do crescimento do varejo de material de construção.
O ano de 2020 terminou, portanto, positivo para a
construção civil como um todo. Uma pesquisa realizada em dezembro com
indústrias do setor apontou que 89% acreditavam terminar o ano com crescimento
no faturamento. E o que podemos esperar de 2021?
Apesar de ainda muitas incertezas, como o impacto
na demanda de obras e reformas com o fim do auxílio emergencial, o nível de
emprego que impacta especialmente o varejo da construção e o desempenho da
macro economia que impacta principalmente as expectativas futuras de
investimentos em imóveis, nossa expectativa é de um ano positivo para o varejo
do setor e crescimento do PIB da construção civil de 4%.
Quando perguntadas em dezembro, 100% das
indústrias pesquisadas previam aumento de faturamento em 2021, sendo que 67%
esperam crescimento acima de 10%. A mudança de comportamento do consumidor que
já iniciou sua obra ou recém comprou seu imóvel e precisará reformar em breve,
as taxas de juros que devem permanecer baixas, o marco legal do saneamento
básico e o lançamento da Casa Verde e Amarela, que prevê a regularização
fundiária de 2 milhões de casas até 2024 funcionarão como combustíveis de
estímulo à demanda.
A pandemia trouxe grandes desafios, mas os
percalços pavimentaram um porvir promissor para o setor da construção. Devemos
estar preparados para diversos cenários, claro, mas é fato que trabalharemos
para que a Construção Civil contribua como nunca para o crescimento do Brasil em
2021.
*Antonio Serrano é CEO da
Juntos Somos Mais.
