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As gôndolas dos supermercados contam a história da economia

*Por: Alvaro Furtado, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios do Estado de São Paulo (Sincovaga-SP)

 

  As rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti...”. A música de Cartola lembra que, mesmo sem palavras, há coisas que dizem muito. No supermercado acontece algo parecido. As gôndolas não falam, mas contam histórias. E, quando observadas com atenção, podem revelar muito sobre o momento vivido pela economia e pelo consumidor brasileiro.

 

Um exemplo está no mais recente levantamento da Neogrid sobre ruptura, termo usado no varejo para indicar a falta de um produto que deveria estar disponível para o consumidor. Em julho, o índice geral de ruptura nos supermercados brasileiros caiu para 10,8%, o menor nível dos últimos 12 meses. Em junho, estava em 11,5%.

 

  Na prática, ruptura é aquela situação conhecida por quem já foi ao supermercado procurando um produto específico e não o encontrou. Pode ser uma marca de café, um tipo de arroz ou uma determinada embalagem de leite. O produto faz parte do sortimento da loja, mas, naquele momento, não está disponível para compra.

 

  Uma gôndola mais abastecida, portanto, é uma boa notícia para o consumidor. Significa que o varejo conseguiu melhorar a reposição e reduzir as situações em que o cliente chega à loja e não encontra o que procura.

 

  Mas os números contam uma história mais complexa. A queda da ruptura acontece ao mesmo tempo em que o consumo demonstra sinais de maior cautela. Em julho, o faturamento real do varejo caiu 1,4% comparado ao mesmo mês de 2025, enquanto o IPCA-15 acumulava alta de 4,5% em 12 meses.

 

  Ou seja: há mais produtos disponíveis, mas o consumidor está comprando com mais cuidado. É como se as gôndolas estivessem dizendo: “tem produto, mas o consumidor está escolhendo melhor”.

 

  Esse comportamento tem impacto direto na gestão dos supermercados. Com as famílias mais atentas ao orçamento, as compras podem ser menores, mais planejadas e distribuídas entre diferentes estabelecimentos em busca de preços melhores. Para o varejista, torna-se ainda mais importante acertar o que será colocado na loja, na quantidade necessária e no momento adequado.

 

  Os números de algumas categorias ajudam a entender esse movimento. A ruptura de ovos, por exemplo, caiu de 27,8% em junho para 22,4% em julho, uma redução de 5,4 pontos percentuais. O leite UHT recuou de 13,8% para 11,4%. No café, a queda foi de 9,4% para 7,4%. O arroz passou de 11% para 9,5%, enquanto o açúcar caiu de 9,4% para 8,5%. O feijão praticamente ficou estável, passando de 8,3% para 8,1%.

 

  O movimento, porém, não é igual em todas as categorias. O papel higiênico foi na contramão: a ruptura subiu de 14,1% para 15,9% em julho. Ao mesmo tempo, os preços médios das diferentes versões do produto também aumentaram.

 

  É justamente aí que a observação das gôndolas se torna interessante. Elas não são um termômetro perfeito da economia, mas ajudam a revelar mudanças na relação entre oferta, preços, estoques e comportamento do consumidor.

 

  Uma prateleira vazia pode significar dificuldade de produção ou transporte, mas também pode estar relacionada a uma decisão de estoque do varejista ou a uma mudança inesperada na procura. Da mesma forma, uma gôndola cheia não significa necessariamente que as vendas estejam fortes. Pode representar uma oferta maior diante de um consumidor que está comprando menos.

 

  A melhora da disponibilidade dos produtos está relacionada tanto à recomposição da cadeia de abastecimento quanto a um ritmo de compras mais cauteloso. Com menor velocidade de saída, os estoques podem permanecer disponíveis por mais tempo.

 

  Para o varejo, essa é uma equação que exige atenção permanente. O supermercado precisa ter o produto que o consumidor deseja, mas não pode simplesmente aumentar estoques sem considerar o ritmo das vendas. Produto parado também representa dinheiro imobilizado e pode gerar perdas, especialmente no caso de alimentos perecíveis.

 

  Por isso, reduzir a ruptura é importante não apenas para melhorar a experiência de compra, mas também para tornar a operação mais eficiente. A falta de um produto pode significar uma venda perdida e, em um mercado cada vez mais competitivo, levar o consumidor a procurar outra loja.

 

  Há ainda uma mensagem importante para a indústria e para o varejo: o consumidor mudou.

 

  Em um cenário de orçamento mais apertado, cada escolha ganha peso. Se não encontra o produto que procura, o consumidor pode procurar outra loja. Se considera o preço alto, pode trocar de marca, reduzir a quantidade ou simplesmente adiar a compra.

 

  É por isso que os dados de ruptura merecem ser acompanhados para além de uma questão operacional. Eles ajudam a entender o que está acontecendo dentro da casa dos brasileiros.

 

  A gôndola, afinal, é o ponto onde diferentes forças da economia se encontram. Ali estão o custo de produção, o transporte, a disponibilidade de matérias-primas, as decisões da indústria, a estratégia do varejista e, principalmente, o bolso e as escolhas do consumidor.

 

  Em julho, os dados trouxeram uma mensagem aparentemente positiva: menos produtos em falta. Mas também deixaram um recado que merece atenção: o consumidor continua cauteloso.

 

  As rosas podem não falar. As gôndolas também não. Mas, quando os números são observados com cuidado, elas têm muito a dizer sobre o país − inclusive sobre aquilo que ainda não aparece imediatamente nas estatísticas mais tradicionais da economia.

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Alvaro Furtado/Créditos: Reprodução (Notícias da Região)
26/08/2026

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