O Exemplo que Vem do Varejo
*Por Paulo Marcelo
Um
dos impactos mais marcantes de todo o processo de hiper digitalização
que temos vivido nos últimos anos -- e que deve se manter nos próximos
-- é a colocação do consumidor no centro das decisões. Isso já vinha se
mostrando uma realidade em setores como serviços e, principalmente, o
varejo.
Um
dos princípios do comércio eletrônico é justamente o uso da tecnologia,
não apenas para trazer mais conveniência e comodidade aos consumidores,
mas também para conhecê-los melhor. É isso que vem permitindo ao varejo
criar, mais que ofertas, experiências personalizadas, atraindo e
retendo seus clientes com itens que vão além do melhor preço. Como
resultado, vemos o cliente ditando as regras, dizendo o que quer e como
quer.
O
que muitos clientes têm se perguntado nos últimos anos é: se isso é
possível no varejo, por que não em outras áreas? Este é exatamente o
desafio que vem sendo colocado ao setor financeiro, mais especificamente
aos bancos. Até bem poucos anos atrás, este era um setor acostumado a
ditar suas próprias regras, estabelecer processos e aguardar que os
correntistas se adaptassem.
Já
não funciona mais assim, e há uma série de fatores que demonstram isso.
Um deles é o Open Banking, que além de colocar o cliente no centro das
estratégias, tirou o protagonismo das grandes instituições financeiras,
abrindo espaço para que bancos digitais e fintechs passassem também a
oferecer serviços financeiros.
E
não só. Com a digitalização, esses serviços estão hoje disponíveis para
os chamados "desbancarizados" e para aqueles que estão começando sua
vida financeira. Ao colocar esse público no centro de suas estratégias,
estes novos atores conquistam não apenas o mercado, mas a relevância
necessária para tensionar as relações com as instituições tradicionais,
forçando-as a mudar também.
Tudo
isso vem sendo acompanhado de perto pela legislação, que hoje vem sendo
adaptada para regular e definir esse novo modelo de relação. Hoje há,
por exemplo, regramento que permite às instituições operar no mercado
financeiro com menos vínculos do que os mantidos hoje pelos clientes com
os grandes bancos.
O
fato é que chegamos ao ponto em que o setor de finanças começa a se
aproximar de outros, como o varejo, seguindo seu exemplo. Isso tem se
traduzido em uma busca cada vez maior pelo entendimento do cliente, pelo
conhecimento de seus costumes e interesses. Estamos em um momento em
que as instituições financeiras começam a entender como operar nesse
meio, atraindo, fidelizando e mantendo seus clientes.
E
a tecnologia tem sido fundamental nesse processo. Muitas destas
instituições têm se aproveitado do open innovation para, com base nos
feedbacks obtidos de seus clientes, criar novos produtos e serviços,
acelerando suas entregas. Esse movimento pressupõe o uso de plataformas,
sejam fornecidas por startups ou não, para obter tempos de resposta
cada vez mais rápidos e estar à frente da concorrência, isso sem deixar
de lado a segurança e flexibilidade necessárias para acompanhar um
eventual crescimento.
É
o que temos visto com o Open Banking. O cliente no centro das
estratégias e desafiando o setor financeiro a operar em um ecossistema
aberto, oferecendo a possibilidade das startups se integrarem a ele. A
tecnologia deve ser o acelerador desse mercado e para isso precisa ser
bem trabalhada para que não seja um inibidor desse processo, seja em
qualquer elo da cadeia, da segurança à entrega, como no varejo.
*Paulo Marcelo é CEO da Solutis
05/04/2022
