Indústria x Varejo: chegou a hora do próximo passo da relação
*PorCarlos Wayand, CEO da Mob2Con
É difícil utilizar qualquer outra
palavra para resumir a relação entre a indústria e o varejo que não seja
controversa. Por um lado, o setor industrial parece se atentar somente à
fabricação de seus produtos dentro do seu conceito de economia de escala, ignorando
as necessidades do varejo. Por outro, o segmento varejista foca a sua atenção
somente na venda e rentabilidade dos itens, sem necessariamente dar ouvidos aos
interesses e dificuldades por parte dos fabricantes. Assim, por mais evidente
que um vínculo mais forte entre as partes seja imprescindível, ainda é comum
observarmos cada lado tratando um ao outro como adversários, e não como um
verdadeiro parceiro estratégico de negócios.
Um exemplo que pode parecer
simplista, mas que resulta em custos e desperdícios enormes para ambos os
segmentos são as embalagens dos produtos. Hoje, a maioria das indústrias
entregam a sua mercadoria ao varejo da forma que considera mais conveniente. Como
consequência, o varejo precisa adequar as gôndolas e sua estrutura operacional
para ofertar os itens aos clientes nas quantidades adequadas ao giro do
produto.
Ou seja, ou ele manda para a loja na embalagem de fábrica e
carrega um custo elevado de estoque em loja, ou efetua o desmembramento da
caixa master no depósito e manda só o giro para a loja, gerando um custo
operacional elevado e com alto risco de danificar o produto no transporte.
Portanto, fica evidente que se faz
necessário um melhor alinhamento de soluções entre as partes. No caso das
embalagens, todos sairiam beneficiados se existisse uma maneira das indústrias
fabricarem os produtos alinhados à praticidade necessária para o varejo.
Essa situação, por mais simples que
seja, é uma boa amostra de como uma melhor conexão pode ampliar
consideravelmente a produtividade dos dois segmentos. Porém, os ganhos tendem a
ser maiores se avaliarmos projetos e debates que se enquadrem em aspectos ainda
mais estratégicos como, por exemplo, as práticas comerciais.
Hoje, é rotineiro que o varejo "empurre" os pedidos para o mais próximo possível do fim do mês sabendo que a
indústria, muitas vezes, melhora as condições comerciais por conta de suas
cotas e metas internas. No entanto, tal prática tende a causar problemas ao
planejamento do setor industrial e, ao mesmo tempo, gerar também dificuldades
para o próprio varejo a longo prazo, uma vez que o setor pode ter sua demanda
não atendida quando for necessária.
Portanto, essa é mais uma queda de
braço que poderia ser facilmente solucionada se existisse um alinhamento entre
os setores. Com a construção de um planejamento estratégico sob demanda, a
indústria conseguiria ajustar a sua produção a longo prazo, além de atender ao
varejo de uma forma muito mais assertiva no que diz respeito ao tamanho das
embalagens dos itens, proporcionando, possivelmente, até uma embalagem que já
fosse direto para a gôndola, aumentando a eficiência da reposição sem deixar a
loja esteticamente "feia".
Caminho traçado
A grande verdade é que indústria e
varejo estão conectados de uma forma que é impossível de ser apartada. Sem
produtos não há comércio, e sem comércio o produto não chega ao cliente. Como
se trata de uma relação inevitável, está mais do que na hora de torná-la
realmente propícia e eficiente. A colaboração mútua e a integração dos
interesses e demandas, numa discussão cada vez mais aberta e saudável, tende
não só a ser extremamente benéfica e produtiva para os dois setores, mas
principalmente para o alvo comum de ambos: nós, consumidores.
No entanto, acredito que já está na
hora de acelerarmos o ritmo dessa caminhada. Por isso, avalio que as
associações devem assumir um papel de protagonismo no processo. Até porque, um
representante do varejo falando individualmente não tem força suficiente para
mudar todas as nuances da cadeia industrial, assim como o inverso também se
aplica. Para que as transformações ocorram de forma efetiva, é imprescindível
que as discussões sejam desenhadas a partir de discursos representativos de uma
visão macro de ambos os ecossistemas, o que só será possível por meio da
representatividade das entidades de classe.
Graças a atuação dessas diversas
associações, que se destacam sobretudo a nível de representatividade dentro da
esfera pública, os setores já mostraram sinais de que estão começando a traçar
um caminho comum e único para fortalecer sua integração. Por que não dar mais
esse novo passo?
