Consumo de feijão cai no Brasil, enquanto exportações avançam e indústria busca novas soluções para o varejo
*Por Fábio Neto, diretor comercial da Combrasil
O feijão, um dos principais pilares da alimentação no Brasil, passou a ocupar também um novo papel: o de indicador sensível das transformações no comportamento de consumo das famílias brasileiras. Mudanças no orçamento, no tamanho dos lares e no tempo disponível para cozinhar têm se refletido diretamente nos dados de produção, compra e consumo do produto.
Nos últimos anos, o mercado passou a registrar uma queda contínua no consumo per capita de feijão no país. Entre os fatores estão a redução do tempo dedicado ao preparo das refeições, o crescimento de domicílios com menos pessoas, o avanço das refeições fora de casa e a maior procura por alimentos de preparo rápido. Esses elementos vêm alterando a relação do consumidor com os alimentos básicos.
De acordo com a Embrapa Arroz e Feijão, o consumo médio nacional em 2023 foi de 12,7 quilos por pessoa ao ano. Embora ainda elevado em comparação a outros mercados, o volume representa retração relevante frente ao histórico brasileiro. Estudos apontam uma queda de aproximadamente 52% na aquisição domiciliar de feijão nos últimos 15 anos, evidenciando uma mudança estrutural no hábito de compra.
Enquanto o consumo interno desacelera, a produção segue em ritmo de expansão. Projeções do IBGE para 2025 indicam crescimento da safra de grãos, cereais e leguminosas, sustentado por ganhos de produtividade. Ao mesmo tempo, dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostram que as exportações de feijão bateram recorde entre 2024 e 2025, impulsionadas pela demanda externa, inclusive de países como o México.
Esse movimento cria um novo cenário para a cadeia: o excedente busca cada vez mais espaço fora do país, enquanto o mercado interno exige ajustes de portfólio, eficiência logística e estratégias comerciais mais direcionadas.
Na prática, o feijão mantém sua relevância nutricional, mas sua aderência à rotina urbana mudou. O consumidor continua atento ao custo-benefício e ao valor nutricional, porém prioriza soluções mais rápidas, padronizadas, com embalagens menores e formatos ajustados ao cotidiano.
Diante desse contexto, a categoria passa a ser redesenhada a partir de três vetores estratégicos. O primeiro é a agregação de valor por conveniência, com o avanço de versões pré-cozidas, embalagens funcionais, porções menores e produtos prontos para uso. O segundo vetor está na segmentação por perfil de consumo e por região, identificando as praças onde o hábito se mantém forte e aquelas que exigem estratégias específicas de retomada. O terceiro passa pela comunicação objetiva no ponto de venda, destacando valor nutricional, economia doméstica e facilidade de preparo como atributos centrais de escolha.
Essas direções ganham ainda mais relevância quando conectadas às tendências globais apontadas pela Mintel, que indicam crescimento do interesse por alimentos ricos em fibras, ampliação da diversidade alimentar no prato, busca por soluções práticas e maior valorização de benefícios funcionais claros e acessíveis. Esse cenário abre oportunidades para o reposicionamento dos feijões e grãos como soluções completas, eficientes e adaptadas às novas rotinas domésticas.
O futuro da categoria, portanto, não está apenas ligado a volume, mas à capacidade da indústria de operar com eficiência, leitura de consumo, inovação aplicada ao dia a dia e velocidade de adaptação às novas dinâmicas do varejo.
