As Estratégias para o Varejo se Reinventar em uma Realidade Transformada pela Pandemia
*Por Elói Assis
O varejo brasileiro se transformou bastante nos últimos dois
anos por influência, e consequência, da pandemia. Mas, a transformação não
ficou apenas deste lado do balcão, ela também chegou aos consumidores. A
geração Z, e outras gerações, mudaram seus hábitos de consumo e seus perfis,
dando maior valor às formas de se relacionar com as marcas.
Neste contexto, a tecnologia ampliou os horizontes de pequenos,
médios e grandes varejistas, que investiram em soluções para aumentar sua
produtividade, expandir os negócios e marcar presença no ambiente virtual,
comunicando-se com o outro lado. E, são muitas as estratégias voltadas para a
ampliação dos negócios online. Porém, com o avanço da vacinação e a expectativa
da queda das restrições sanitárias, é possível uma volta gradativa das compras
e experiências físicas. Mas é certo: nada será como antes, não voltaremos para
o lugar que estávamos antes de março de 2020.
Para quem pensa em tecnologia atrelada ao varejo apenas nos
meios digitais, está enganado. Agora, para melhorar a experiência dos
consumidores nas lojas físicas, a tecnologia é a resposta mais uma vez. E há
uma grande diversidade de ferramentas que podem ser exploradas neste sentido.
É neste ponto, por exemplo, que a implementação da rede 5G
acelerará ainda mais essa transformação, aumentando a conectividade móvel e
impulsionando uma nova evolução das lojas físicas, a partir do uso total da
capacidade das tecnologias e ferramentas inteligentes aplicadas aos negócios. O
5G melhora e impulsiona a adoção de dispositivos de IoT (Internet das Coisas)
e, com isso, viabiliza sensores e aparelhos para monitorar o movimento das
lojas e das prateleiras, permitindo a gestão combinada com o estoque, e
dispositivos conectados também serão capazes de sinalizar a manutenção
preventiva da loja, por exemplo.
Para os varejistas que possuem colaboradores no atendimento
direto ao cliente, o uso de tablets e smartphones será ampliado, com uma
conexão e a disponibilidade de dados ainda mais rápida e com mais mobilidade.
Totens de autoatendimento, com adoção crescente no varejo brasileiro, também
poderão ter conexão e acessibilidade ampliadas. E para o cliente, existirão
inúmeras oportunidades de inovar na experiência do cliente na loja, como
realidade aumentada e beacons.
Outra possibilidade a ser explorada é a Realidade Virtual, em
que os varejistas conseguem criar ambientes 3D para que os clientes possam
visualizar projetos, lojas e produtos de forma verossímil ao real, embora esse
espaço ainda tenha gerado mais "buzz" do que resultados. E, por fim, posso
ainda mencionar toda a parte de distribuição e logística, que poderá se tornar
mais automatizada, inteligente, rápida e a custos mais baixos.
Paralelo a este cenário que nos espera, é importante que todas
essas tecnologias e formatos de experiências estejam alinhados a uma estratégia
sólida de omnicanalidade. Já venho falando desde antes da pandemia que
estaríamos vivenciando a era da policanalidade, e que essa era só atingiria seu
potencial se fosse tratada de forma omnicanal, e foi o que aconteceu: o varejo
explorou a integração de seus múltiplos canais e da experiência do consumidor
off e online. Agora, que a policanalidade é uma realidade, essa omnicanalidade
se consolida para que possamos escalar cada vez mais os resultados.
As grandes varejistas entenderam a necessidade de uma
experiência unificada e fluida, em que online e offline se convergem para
proporcionar uma jornada mais completa. Nesse sentido, alguns conceitos foram
aplicados e se destacaram com popularidade. Na NRF 2022: Retail's Big Show,
por exemplo, a Nike reforçou a criação de diferentes estilos e formatos de
lojas, planejadas para atingir e agradar a diferentes públicos-alvo. A marca já
adotou o sistema pick and go, em que o cliente escolhe um produto na
loja física a partir da leitura do código de barras pelo próprio celular, no
aplicativo da marca, para obter informações como preço, avaliações,
especificações técnicas, etc. Ao fechar a compra, com o produto no carrinho,
basta fazer o pagamento na própria plataforma e, em poucos minutos, ele é
liberado. Na Nike House of Innovation, por exemplo, os fãs da marca também
podem utilizar o aplicativo para customizarem e criarem seus próprios tênis.
Outra grande marca que uniu tecnologias à customização foi a
Sephora. A varejista de produtos de beleza lançou um aplicativo com múltiplas
funções, criando uma rede social exclusiva para clientes de seu programa de
fidelidade. Dessa forma, a loja pôde aplicar recursos de realidade aumentada,
chats online para que os consumidores troquem informações e outras experiências
que agreguem na jornada de compras.
Ao acompanhar o recente evento da NRF 2022, pude perceber outras
preocupações e tendências para este "novo momento" -- lê-se: transformado pela
pandemia. Com o modelo híbrido de trabalho e rotinas mais flexíveis, esse
cenário dá espaço para as "cidades de 15 minutos". De forma mais prática, é a
pessoa aproveitando mais os comércios e serviços que estão próximos de suas
casas, o que vai levar a um crescimento nas lojas de proximidade de grandes
marcas, mais lojas com clique e retira e maior penetração de dark stores
e dark kitchens nos bairros, para viabilizar a logística de 15 minutos.
Adicionalmente, lojas que oferecem serviços aos seus consumidores também estão
entre os destaques, como alimentação (cafés ou restaurantes) ou outros
serviços, relacionados ou não com o segmento do varejista, para que os clientes
aproveitem mais o momento de compras e criando relevância para a loja física,
num domínio em que o digital não consegue competir.
Além de tudo isso, fiquem de olho no metaverso. Uma nova
tendência que, assim como a Realidade Virtual em loja física, tem o potencial
de impactar significativamente a loja digital e as realidades de consumo como
conhecemos. Entretanto, ainda estamos nos primeiros momentos de compreender
como o varejo será impactado.
Fato
é que os consumidores mudaram sua forma de consumir e estão cada vez mais
privilegiando experiências, relacionamento e avaliando o propósito das marcas
que consomem. É importante que os varejistas entendam esse novo cenário, mas
ainda assim, voltem-se para a análise do seu público-alvo e dos "advogados da
marca". São para eles que as inovações precisam funcionar, a fim de retê-los e
pouco a pouco construir uma nova legião de consumidores. A tecnologia está
disponível para apoiá-los nessa reinvenção.
*Elói
Assis é diretor executivo de Varejo da TOTVS
