A Jornada da Transformação Digital no Setor de Varejo
*Por Fernando Gambôa
Em
março do ano passado, quando as medidas de restrição de circulação começaram a
vigorar na maior parte dos estados brasileiros, tivemos, o que chamamos em
gestão de riscos, do surgimento de um cisne negro, um evento único. Tratava-se
do pior pesadelo do varejo brasileiro, que veio à tona com o fechamento das
lojas. Isso significou a interrupção abrupta das vendas. Neste cenário, a
primeira pergunta foi a seguinte: como seguir? E a resposta veio rapidamente a
até naturalmente, seguir por meio do comércio digital.
Como
nem todas as empresas estavam preparadas para operar por meio digital e muitas
vezes não sabiam qual era o melhor caminha a seguir, o que vimos, em seguida,
foi uma adoção massiva de tecnologia, muita digitalização para manter os
negócios operando, dos pequenos aos grandes varejistas, passando pelos
microempreendedores e varejo de bairro. Isso já indicava um caminho, de que o
varejo estava seguindo os passos do varejo chinês e americano e indo rumo a um
mercado cada vez mais digital e focado na experiência do consumidor.
Essa
digitalização foi muito diversificada e se deu por meio de sites, apps, vendas
pelo aplicativo whatsapp, mídias sociais com o comércio eletrônico. Fontes que
monitoram o comércio digital no Brasil apontaram que, no final de 2019,
tínhamos por volta de 20 milhões de usuários de comércio digital. Este mesmo
monitoramento mostrou que, este ano, já somos mais de 42 a 45 milhões de
usuários, ou seja, um avanço tremendo onde dobramos a quantidade em um ano. E
este avanço está diretamente relacionado à digitalização do setor que trouxe
conveniência, segurança e menos contato com melhor experiência.
Para
se ter uma ideia, em termos Brasil, no final de 2019 e começo do ano passado,
5% das vendas eram digitais. Hoje, já falamos em pelo menos 18% a 20% no final
deste ano de comércio eletrônico. Acredita-se que, em até cinco anos, já
teremos uma inversão entre canais, em que a maior parte do volume bruto de
mercado (Gross Merchandise Volume - GMV) será oriunda de canais digitais. Existe
ainda um espaço muito grande para crescimento de empresas com forte adoção
digital e adepta aos novos modelos, como superapps e ecossistemas de negócios.
Infelizmente,
nem todas as empresas conseguiram avançar na mesma velocidade e aquelas que já
estavam em situação mais crítica e com o caixa afetado por diversas razões
tiveram a atuação e os resultados ainda mais impactados pela covid-19,
principalmente, quando falamos daquelas que não comercializam os produtos
chamados essenciais. Uma pesquisa da CNI apontou que 40% dos entrevistados
reduziram a compra de calçados enquanto 11% aumentaram. Outros 43% compraram
menos roupa, contra 13% que compraram mais. A pesquisa indicou ainda que 30%
dos entrevistados planejam comprar mais roupas e calçados em até 3 meses, o que
pode trazer alento a um segmento muito afetado.
Por
outro lado, desde que esta crise da covid-19 começou, muitas empresas fizeram a
lição de casa, desenvolvendo estratégias de curto e médio prazos, buscando
oportunidades que surgem em todas as crises. Organizações com robustos padrões
de governança já estabelecidos, em termos operacionais, estão aproveitando a
janela de mercado para fazer uma forte capitalização, reforçando a posição de
liquidez para financiar um crescimento acelerado. Outras já avançaram na agenda
de transformação digital, seguem investindo alto em tecnologia e possuem uma
estrutura de capital bastante robusta que permite ter fôlego para aguentar a
cauda longa da pandemia com uma posição de liquidez forte. Estas estão buscando
alvos de forma muito cirúrgica, para complementar o portfólio e aumentar o raio
de atuação. Nesse contexto, podemos citar também aquelas empresas que não
estavam fragilizadas e que o mercado enxergava como muito focada em determinado
público ou faixa de renda, mas que por sua vez avançaram com a digitalização,
marketing digital, estratégia ominichannel.
Outra
forma encontrada pelas empresas na jornada de digitalização se dá pela
aquisição de uma outra organização complementar ao negócio do varejo como, por exemplo,
companhias de meios de pagamento, crédito, conteúdo qualificado, marketing
digital, laboratórios de inovação, produtos financeiros e logística urbana.
Essas aquisições fazem com que, praticamente toda a jornada de consumo,
independente de canal ou dispositivo, passando por pagamento e entrega, fique
sob responsabilidade de um player principal. E este ecossistema digital que se
forma, com essas incorporações relacionadas com conteúdo e entretenimento, tem
por objetivo gerar tráfego nos canais digitais da marca. Toda esta estratégia
digital, que não para de crescer, tem no tráfego um dos indicadores principais
diretamente relacionado à captura da atenção do consumidor para ela e para os
vendedores associados. Nesta equação, não podemos nos esquecer das startups que
têm despertado muito interesse e são fundamentais para montar estas empresas
com maior raio de atuação, com soluções complementares especializadas.
Estamos
em um momento difícil, mas essa crise vai passar. Temos muito espaço ainda para
avançarmos quando falamos do setor de consumo e varejo. Este ano já se espera
que a China tenha um varejo digital maior que o físico, em que mais de 52% das
vendas sejam feitas em meio digital. Em termos de comércio digital, sabemos que
ainda temos muito espaço no Brasil, e isso mesmo crescendo a dois dígitos. É
uma ótima oportunidade para ser explorada!
*Fernando
Gambôa ésócio de consumo e varejo da KPMG.
