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A Engenharia de Refrigeração a Serviço do Varejo

*PorRogério Marson Rodrigues

O varejo vive em constante evolução buscando acompanhar as alterações de comportamento dos consumidores e as mudanças do mercado. Os equipamentos de refrigeração, que estão entre os mais importantes para a operação de um supermercado, seja pelo investimento inicial, custo operacional ou importância para garantir a qualidade e segurança alimentar dos produtos perecíveis, também evoluem para oferecerem, sempre, a solução adequada para cada tipo de negócio.

Durante um longo período, 1980 - 2010, a tecnologia dos sistemas de refrigeração esteve estacionada em um patamar quase que sem alterações. Foram mais de 30 anos de projetos com o gás R22 dominando a cena e trazendo as respostas simples que dele eram esperadas. Sem demandas ambientais que restringissem sua aplicação, seguiu onipresente por décadas a fio. Os projetos de refrigeração de novos supermercados tinham por objetivo avaliar e escolher as melhores formas de expor os produtos perecíveis e harmonizar os balcões frigoríficos com a arquitetura da loja, tornando o ambiente do salão de vendas mais agradável para o consumidor, sem muito se questionar com o que aconteceria lá na casa de máquinas.

O ano de 2010 foi um marco na história da refrigeração comercial brasileira, quando foi quebrada a hegemonia do R22, a quase única alternativa de escolha de projetistas, fabricantes, instaladores e supermercadistas. O Protocolo de Montreal trouxe regras claras para consumo dos HCFCs, como o R22, e o mercado reagiu a esta questão de forma tranquila e gradual, tomando as ações necessárias para este processo de transição. Neste momento, os gases denominados HFCs, tais como o R134a e o R404A, hoje muito conhecidos pelos supermercadistas, tornaram-se as grandes alternativas para redução da degradação da camada de ozônio.

Anos mais tarde, tendo como foco a redução do impacto dos gases no aquecimento global, um acordo internacional elabora a Emenda de Kigali, uma emenda ao Protocolo de Montreal, que estende a ação de controle e redução do uso também para os HFCs, os gases adotados como alternativos ao R22. 126 países já ratificaram a Emenda de Kigali, a qual define regras e cria um cronograma gradativo de redução do consumo destes gases, orientando o mercado para ações de curto, médio e longo prazo, porém o Brasil encontra-se fora deste grupo de países. Há 22 meses o Projeto de Decreto Legislativo nº 1100/2018 encontra-se em regime de urgência aguardando entrar em pauta no plenário da Câmara dos Deputados. Sem a ratificação pelo governo brasileiro, o mercado nacional faz voo cego, apesar da indústria de máquinas e equipamentos já estar preparada com as soluções alternativas. Quando votada e aprovada, os supermercados brasileiros terão menos tempo de adaptação quando comparado aos de outros países que tomaram esta decisão com antecedência.

O período de pandemia, que se arrasta há quase 2 anos, trouxe novas perspectivas sobre o conceito de vida no cotidiano, pisamos levemente nos freios, mas logo em seguida começamos a reaceleração, e toda retomada demanda energia, muita energia elétrica, e é aqui que nos deparamos com nossos velhos problemas. Nossa matriz energética é basicamente hidráulica. Com a escassez de água, a geração de energia fica comprometida e os custos sobem quando da ativação de outros meios de geração. Como maior consumidor individual de energia elétrica em um supermercado, a refrigeração volta à cena com a demanda por equipamentos e sistemas mais eficientes energeticamente. Precisamos de uma transição efetiva com o intuito de reduzir ainda mais o consumo de energia elétrica destas máquinas, além do que já foi conseguido com a inclusão de portas nos expositores frigoríficos. Projetos de novas lojas, ou reestilização de antigas, passam a demandar foco na eficiência energética, exigindo do investidor a análise do custo total de operação na tomada de decisão sobre o investimento.

Não bastasse as oscilações do mercado de energia, a comercialização dos gases aplicados à refrigeração resolveu assumir o protagonismo nestas últimas semanas. Os reajustes ocorridos nos últimos 2 anos decorrentes da variação cambial se tornaram irrisórios perante aumentos de preço, sem prévio aviso, de até 500%. O que explica tal situação? O que originou movimento tão abrupto? Não temos as respostas. Passada a tormenta, aguardamos redução dos preços e retorno às condições de normalidade, com a garantia de que não vai faltar gás para distribuição e atendimento do mercado nacional, seja para manutenção ou projetos novos.

Este movimento inesperado do mercado de gases foi um sinal de alerta, mesmo que não tenha ocorrido com esta intenção. Temos que reduzir o consumo dos HFCs ao mínimo possível, ou até mesmo interromper seu uso, eliminando a dependência da refrigeração comercial destes gases que estão sob o foco da Emenda de Kigali. As tecnologias aplicadas às máquinas e equipamentos para este fim já estão disponíveis para uso imediato, e o processo de transição deve ser iniciado por todos àqueles que ainda não o fizeram, pois a adaptação às novas tecnologias será gradativa e ao longo de alguns anos, principalmente na preparação e capacitação dos recursos humanos. Já são dezenas de lojas no mercado brasileiro completamente isentas, livres dos HCFCs e HFCs, ou de qualquer tipo de gás que possa ser classificado como danoso ao meio ambiente.

E o que esperar do futuro além de gases menos poluentes e máquinas mais eficientes? Na verdade, um mundo novo já está nas pranchetas de muitos técnicos e engenheiros iluminados com a visão de um mundo digital. A Indústria e o Varejo 4.0 fazem parte de um novo modelo de gestão dos negócios, quase a um clic de nossas mãos. Bancos de dados gigantescos com informações de temperaturas de balcões e câmaras são a base para que máquinas sejam preparadas para processos analíticos e passem a tomar decisões, objetivando garantir eficiência e qualidade no armazenamento e exposição de perecíveis.

Um mundo novo se desenha à nossa frente, e não será para a geração seguinte. Cabe aos gestores atuais entenderem como serão afetados pelas novas tecnologias e como tirar delas o melhor proveito.

*Rogério Marson Rodrigues é Gerente de Engenharia da Eletrofrio.

05/11/2021

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