Uber dos Repositores de Supermercados
*Por Jonathan Dagues
Recentemente, tomei conhecimento de uma matéria
veiculada sobre uma nova solução: um aplicativo semelhante ao Uber que oferece
missões para repositores de supermercados em troca de remuneração.
Temos que reconhecer que, atualmente, o modelo de
execução de merchandising brasileiro tem exigido grandes investimentos por
parte das marcas e indústrias, gerando assim, a necessidade de alguma solução
que possa equilibrar o custo/receita de atendimento aos PDVS.
Também é indiscutível que a digitalização e novas
soluções devem ditar a tendência para os próximos anos.
Contudo, esta solução exige pontos de atenção e
desenvolvimento para que tenha aderência às necessidades brasileiras.
Os varejistas brasileiros, em sua maioria, estão
preocupados em elevar a experiência de compra de seus clientes. A qualidade do
atendimento e a aderência ao padrão das lojas se dá pelo relacionamento e pelo
desenvolvimento constante destes profissionais.
Temos percebido que as indústrias e agências de
merchandising estão preocupadas em investir em treinamento e aperfeiçoar esse
time e o alto giro de profissionais representando as marcas tendem a prejudicar
a gestão deste importante ponto.
Rupturas, indisponibilidade na área de vendas,
ineficiências na gestão do estoque, entre outros importantes temas, geram aos
varejistas, em seus diversos canais do seu atendimento, relevantes perdas. É
preciso estar treinado e conhecer as necessidades da loja, possuir relacionamento
com os gestores da loja e assim, mitigar estes riscos. As visitas avulsas não
podem ser comparadas aos profissionais que são constantemente treinados e
desenvolvidos para esta função. Além disso, o processo de credenciamento de
promotores em lojas exige das indústrias e agências especializadas a
responsabilidade por todo e qualquer prejuízo causado por estes profissionais
em loja. Quem seria responsável por estes profissionais via aplicativos?
Riscos trabalhistas prometem ser um grande ponto de
atenção com o avanço desta solução. Em tese, a maior parte dos profissionais
credenciados no aplicativo já são promotores e já são regularmente contratados
representando alguma marca. Estes profissionais, com o objetivo de incrementar
sua renda, serão atraídos por aceitar as missões e assim, obter remuneração
adicional. Porém, se estes profissionais já são empregados formalmente, os
atuais empregadores terão responsabilidade por riscos ocupacionais, horas
extras laboradas para o aplicativo, gerando um sério desvio de função. Isso
levará grandes discussões aos tribunais trabalhistas.
Quanto a comparamos este movimento ao Uber, notamos
uma relevante diferença. Os motoristas
de Taxi já eram trabalhadores autônomos e a Uber apenas facilitou o meio de
acesso ao serviço, por meio do universo colaborativo que criou. No caso dos
promotores repositores, eles são profissionais regularmente contratados,
respeitando a legislação trabalhista e podem, em último estágio, representar
uma queda nos empregos formais nesta categoria.
Os aplicativos que remuneram colaboradores por
missões cumpridas já são uma prática consolidada globalmente, porém, para fins
de pesquisa, sem qualquer interação com o estoque das lojas.
Sob meu ponto de vista, o aplicativo é eficiente na
formalização de uma prática muito comum nos PDVs, o chamado "Promotor-Bico",
mas ainda assim, frágil quanto aos riscos já mencionados.
Percebemos assim, que ainda há um longo caminho para
aderência ao mercado brasileiro.
Porém, o atual modelo também não tem se demonstrado
eficiente, já que as indústrias não conseguem cobrir todas as lojas que
gostariam, dado ao limitado investimento. É preciso reinventar-se!
E quanto à digitalização, temos que reconhecer: quem
não se adaptar, estará fora do mercado.
Cabe a reflexão.
*Jonathan Dagues é CEO da SPAR Brasil,empresa de serviços para varejo/indústrias.
