Não é Simplesmente Autorizar a Abertura das Lojas
*Por Maurício Stainoff
Na Jerusalém antiga sob o domínio romano,
a principal via da cidade era a rua do comércio, tinha o nome de Cardo,
era o coração da cidade. Quando o coração está parado, não existe vida
na cidade.
A favor da vida e pelo varejo deveria ser
a premissa de todas as discussões acerca da abertura do comércio no
estado de São Paulo. São temas caros para todos nós e indissociáveis em
todos os aspectos da construção de uma política pública eficaz para o
comércio, deveriam ser argumentos complementares pois sem vida não há
riqueza e sem a possibilidade de gerar a riqueza estamos fadados a
degradação das outras esferas dependentes dessa realidade; as políticas
públicas de assistência e distribuição de renda foram tragadas pelos
maus hábitos da informalidade, da irregularidade e da precariedade. A
liberação de financiamento para as empresas e garantia de emprego
tiveram enormes entraves oriundos de um emaranhado de leis tributárias,
um excessivo modelo de obrigações acessórias e a ficção do
microempresário individual que pretendeu apenas formalizar os informais.
Mas, em meio à pandemia, a solidariedade e
a criatividade são presentes, crescem movimentos associativos e cívicos
importantes para salvaguardar o comércio local, vemos um rápido
movimento de digitalização dos negócios e vivenciamos a mudança do mindset de trabalho, serviço e produtividade.
A regulação do funcionamento e abertura
do comércio no período de quarentena tem sido alvo de críticas de
inúmeros comerciantes em diversos municípios do Estado, mas pouco se
discute o ambiente preparatório para abertura do comércio, pouco ou nada
se discute acerca da organização racional do espaço público, discute-se
o ambiente da loja, as regras de atendimento, mas pouco se fala do
período entre a casa e o comércio ou para o trabalho, ausenta-se um
debate que racionaliza o translado saudável das pessoas.
Mapear as zonas com maior densidade de
serviços públicos e as de comércio é a primeira recomendação importante,
racionalizar o meio de transporte e uso das vias urbanas é uma medida
organizacional necessária para a contenção de vetores de transmissão e
de aglomeração. Ambas as discussões são preparatórias para a regulação
de abertura do comércio local.
O transporte público merece atenção.
Limitar à capacidade de lotação dos ônibus municipais e aumento da frota
regula da quantidade de pessoas e racionalização do espaço público com
alvo na contenção de aglomeração. Proibição de trafego de carros e
ônibus nas ruas de comércio e liberação de transeuntes no leito
carroçável diminui o impacto de adensamento nas calçadas. Criação de
zonas de rodízio de veículos em todos os municípios de São Paulo,
organizando não só o dia, mas o horário de circulação de carros deve ser
aventado. Será através da regulação desses modais de integração entre o indivíduo e o espaço público que criaremos ferramentais para a abertura
dos comércios, seja de forma gradual, limitativa ou seletiva.
*Maurício Stainoff é presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado de São Paulo (FCDLESP).
24/04/2020
