Inteligência Artificial em Tempos de Pandemia
* Por Fernando Teixeira
Minha motivação para escrever esse artigo nasceu
de minha participação no debate com o pessoal da Casa do Saber em que discutimos o uso de ferramentas de Inteligência Artificial (IA)
no combate à pandemia do coronavírus, a partir das reflexões do pensador e
escritor israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e Homo Deus.
Vou repetir o que aprendi com André Blazko
(professor da ESAMC e da Unicamp). Ele me disse que:
"I.A. nada mais é que a união da estatística com a computação. Você poderá, por exemplo, capturar milhões de dados e
transformá-los em cálculos de propensão rapidamente".
Um exemplo é citado por Harari, em recente artigo
no Financial Times, "The World after
the Coronavirus", no qual cita
a China. Lá, câmeras de segurança fazem o reconhecimento facial das
pessoas nas ruas. Esses dados são cruzados com o comportamento das pessoas no celular
(exemplo: localização) e, por fim, com os dados de saúde (exemplo:
temperatura corporal) que as pessoas são obrigadas a colocar no sistema. Assim,
o governo procura predizer se uma pessoa está doente antes mesmo de
manifestar sintomas ou pode sugerir locais da cidade para você evitar.
À primeira vista, parece um ótimo serviço - eles
conseguem pedir (neste caso, obrigar) determinadas pessoas a ficarem em casa.
Nem vertical nem horizontal, é isolamento um a um. Eles tentam até prever
quem serão os próximos doentes (exemplo: o taxista que te levou para casa
na semana passada) etc.
Escolhas
Harari chama isso de escolha entre Vigilância
Totalitarista e Empoderamento do Cidadão. Mas podemos chamar de liberdade.
Até onde vai nossa liberdade em favor do coletivo?
Imagine receber uma mensagem do governo mandando
você ficar em casa no dia do seu aniversário, tendo que cancelar sua festa,
sendo que que você não apresenta nenhum sintoma, "só porque o governo
quer". Você cancelaria? Dá pra confiar na idoneidade do governo quando ele
faz essa sugestão? E se ele tiver outros interesses?
Harari diz que "os algoritmos vão saber
mais da sua vida do que você mesmo". E concordo 100%. Como vimos,
poderá saber que você está adoecendo antes mesmo de você.
Quando dispositivos móveis de IoT (Internet das
Coisas) se conectam, como os relógios inteligentes (smartwatches), os modelos
preditivos acima ficam ainda melhores. E se o governo obrigar toda a população
a usá-los? Ele poderá saber se você gostou do presidente falando em rede
nacional só pelo monitoramento dos seus sinais vitais.
Seguindo a mesma linha, as marcas poderão
saber a reação que suas propagandas criam nas pessoas quando um comercial está
no ar! Ou então saber qual comercial faz as pessoas entrarem no site,
clicar ou comprar algo. Mas e a nossa liberdade de sentir sem compartilhar?
Livre Arbítrio
Outro tema interessante é o livre arbítrio.
Harari acha que delegamos nossa vida para os algoritmos graças ao que ele chama
de "utilitarismo" dessas aplicações. Exemplo: o Waze é tão bom ou
melhor que você para escolher uma rota que você aceita que ele cuide das suas
decisões.
Meu questionamento vai além e gosto de citar os
livros Rápido e Devagar (de Daniel Kahneman) e Previsivelmente
Irracional (de Dan Ariely), que mostram quantos "bugs" a
nossa mente tem. Estudos indicam que o dia em que há maior quantidade de erro
médico é sexta-feira (nunca marque sua cirurgia neste dia!). Os juízes dão mais
sentenças de condenação quando a audiência ocorre antes do almoço (quando estão
com fome), e somos influenciados por números recentes antes de tomar qualquer
decisão racional. Vale a leitura! A dica para pedir aumento de salário é a
melhor. Se contarmos os casos de viés de gênero e cor, então, infelizmente não
cabem em uma enciclopédia.
Essencial para o sucesso de um "profissional
de marketing elevado à inteligência artificial" é ser mais analítico e
menos expert. Ou seja, confiar mais nos dados e saber como trabalhar com eles -
e confiar menos na intuição, na experiência vivida. Usar a estatística a
seu favor.
Desemprego
Estamos só no começo da IA e muita coisa ainda vai
acontecer. Uma matriz que ilustra bem os possíveis impactos está no livro Inteligência
Artificial, de Kai Fu Lee.
Harari acredita que a IA vai nos libertar de
processos repetitivos e burocráticos, ao mesmo tempo que valoriza a
criatividade das pessoas.
Eu gosto de ir além e pensar que IA pode ajudar a
retirar uma camada de experiências ineficientes das nossas vidas. Tem
tanta coisa que não faz sentido e que gastamos horas e horas por aí. Startups
adoram esse tema e eu gosto do exemplo do aplicativo:
Imagine que uma pessoa tentou três vezes fazer
uma operação no app do banco e não conseguiu. É domingo. Em seguida, ela liga
no banco e adivinha só? O banco pede as senhas, o número da conta e passa por
três atendentes antes de dar uma solução.
Se tivesse aplicado o mínimo de tecnologia (e bem
pouquinho de IA), não precisaria pedir todos os dados e gastar minutos preciosos
dos operadores e do sistema de call center. Bastava reconhecer o número do
telefone, cruzar com o dono da conta, aplicar regras de antifraude e não
perguntar nada sigiloso - afinal, a pessoa não queria saber o saldo. Ela só não
sabia que deveria clicar o botão "x" ao invés do botão "y".
Pronto, aqui todos ganham vários minutos de vida.
Esse é só um exemplo de como IA pode melhorar
a experiência das pessoas/consumidores e o quanto isso pode reduzir
ineficiências, além de dar tempo e dinheiro para as pessoas.
A IA é democrática, tem códigos abertos, está na
nuvem e roda até em programas gratuitos. Quem quer se transformar pode fazer
com muito pouco investimento. A partir daí é só ter um pouco mais de
criatividade e pronto! -- você já pode trilhar o caminho do profissional de marketing
elevado à Inteligência Artificial.
*Fernando Teixeira é diretor de soluções e estratégia
na Adobe para a América Latina.
