Inflação e Deflação no E-commerce e Formas de Lidar com Seus Efeitos na Rentabilidade do Negócio
*Por
Ricardo Ramos
Períodos
inflacionários, como o que vivemos neste momento, aumentam os riscos de queda
na demanda e de redução de margem, gerando um cenário ainda mais desafiador
para o varejo. Outro fenômeno, porém, é tão desafiador quanto. Trata-se da
deflação, que nada mais é do que a queda de preços a ponto de prejudicar a
rentabilidade do negócio. O e-commerce, dado seu dinamismo, conhece muito bem
os efeitos dos dois momentos nos preços. A pergunta que muitos fazem é: como
estipular valores de venda adequados em um ambiente de negócios cujos preços
apresentam volatilidade?
Ora,
é nesse contexto, de risco e dificuldade, que ferramentas de otimização ganham
mais atenção, incluindo aquelas voltadas para o pricing. Afinal de contas, a
gestão dos preços tem impacto direto no equilíbrio da demanda e na
rentabilidade. Mas vamos começar por ilustrar as causas mais comuns tanto da
inflação quanto da deflação e o impacto na rentabilidade. No caso da inflação,
os principais aspetos são:
Repasse
de custos da cadeia produtiva através do aumento nos preços. Como exemplo,
temos o aumento dos combustíveis. O transportador repassa esse custo para o
frete, e o lojista repassa para o produto que será disponibilizado ao
consumidor. Inclusive existe, para esse caso específico, um movimento com o
objetivo de tentar reduzir os efeitos da inflação no frete, o chamado ship from
store, no qual os e-commerces enviam os produtos para os clientes a partir das
suas lojas mais próximas, e não a partir dos seus centros de distribuição.
Com
excesso de demanda, os preços tendem a subir porque os comerciantes buscam
capturar a disposição do consumidor em pagar mais. Pensando no recente momento
da pandemia, isso aconteceu com o álcool, cujo preço aumentou, uma vez que a
procura era muita.
Redução na oferta, ou
seja, à medida que os estoques recuam, há tendência de elevação nos preços.
Ainda falando em pandemia, isso aconteceu no início, quando os estoques de
máscaras se tornaram insuficientes para atender à nova demanda que surgiu.
Taxa
de juro, que tem impacto direto em duas vertentes: uma para o varejista, que
tem valores mais elevados na operação e precisará repassar o aumento do custo
de capital para o seu produto. A outra para o consumidor, que vê impacto
especialmente em categorias de ticket alto e que dependem muito de crédito. Por
exemplo, TVs de R$ 7.000 terão os seus parcelamentos mais caros devido ao
aumento da taxa Selic, o que demonstra que, apesar de esse custo não ser
precificado diretamente no produto, ele é precificado no acesso ao bem, ou
seja, no crédito.
Essas
são as situações mais comuns relacionadas ao aumento inflacionário que geram
impacto basicamente de duas maneiras ao negócio. Por um lado, há uma percepção
negativa do consumidor em função do aumento nos preços na loja. E, por outro, a
inflação reduz a capacidade de compra do cliente final.
A
deflação, por sua vez, conta com dois fatores que marcam o ambiente de negócios
do e-commerce. Em primeiro lugar, o surgimento do marketplace traz muita
concentração de vendedores na plataforma. Fica fácil para o consumidor comparar
produtos. Inclusive, muitos marketplaces ordenam ofertas também por preços, e
isso gera uma competição grande. Uma das saídas para ganhar essa luta é
baixando os valores de venda, Contudo, é necessário ter a certeza de que se
precificou o produto de forma correta, para não sair perdendo na transação.
A
Internet, por natureza, é um jogo de preços mais baixos, porque quanto mais
fácil for comparar, mais o consumidor vai basear suas decisões de compras pelo
valor. Outro aspecto é a chegada de sellers internacionais. É comum ver
notícias de players brasileiros comentando que não conseguem competir, pois os
preços praticados pelos competidores de fora são muito baixos.
Nesse
caso, a melhor solução é criar uma marca forte. Se você não tem uma marca que
diferencia seu produto dos demais, você está simplesmente vendendo commodities.
Nesse caso, é muito fácil para o cliente comparar a sua marca com outra. Ou
seja, não você não está preocupado em construir uma marca que seja
percebida pelo consumidor, valorizada - ela vai ser uma vitrine de commodities.
E, quando você é uma vitrine de commodities, tanto faz comprar na loja A ou na
loja B.
Então,
é muito importante construir uma marca que seja valorizada pelo cliente, entregar
serviços e ter um diferencial percebido pelo consumidor além do produto que
está sendo comprado. Isso é fundamental para driblar a percepção de valor e
possibilitar o repasse de certos custos, pois o cliente não vai deixar de
comprar na sua loja porque está mais caro. Ele percebe valor e tem ligação com
a marca.
Outro
ponto relevante é o controle do giro de estoque. Ainda usando o exemplo da
pandemia, muitas empresas ficaram sem estoque rapidamente. Foi um evento que
afetou todo o mercado, mas algumas empresas acabaram sendo mais prejudicadas do
que outras. Então, gerenciar o giro de estoque é crucial, e isso significa não
vender mais rápido do que o planejado e não deixar de repor o estoque para
acompanhar aquela demanda que está presente, batendo à porta.
Nesse
momento, voltamos a falar da importância de possuir como elemento de gestão
soluções que se baseiam em inteligência artificial (IA) para gestão de
estoques, acompanhamento da concorrência e formação de preços. No exemplo
seguinte, podemos verificar a relevância de possuir essas ferramentas de
gestão: uma empresa atribui uma meta de giro de estoque para determinado
produto. Por exemplo, define que ele tem que durar 60 dias. A tecnologia vai
trabalhar para equilibrar a demanda, não deixando o estoque acabar do dia para
a noite, de forma que, quando o volume de estoque começar a entrar em um nível
mais crítico, a plataforma começa a equilibrar, elevando preços, o que já é um
alerta para o varejista repor o estoque. Além disso, a plataforma tem o controle
de lead time, ou seja o de tempo de reposição. Dessa forma, ela controla todos
esses fatores, pois sabe quanto tempo leva para repor e também sabe com que
velocidade os itens estão acabando. Então ela trabalha o preço para que o
varejista tenha tempo de fazer a reposição. Isso é gerenciar o giro de estoque.
Lidar
com a inflação ou deflação, na prática, é determinar o momento certo para
alterar o preço na proporção certa, fazendo com que a demanda e a margem
estejam em sintonia com as expectativas. Em um segmento dinâmico como o
e-commerce, é preciso ter conhecimento das leis do mercado, mas também é
necessário investir nas ferramentas certas, capazes de auxiliar na gestão da
operação e na formação dos preços de venda.
*Ricardo Ramos é CEO
e Fundador da Precifica
